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📖 Fundamentos e Protocolos

Os primeiros socorros configuram-se como o conjunto de intervenções imediatas executadas no local de um agravo traumático ou clínico. O objetivo é a preservação da vida, a estabilização hemodinâmica primária e a mitigação do agravamento fisiológico até a instituição do suporte definitivo (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Brasil, 2003; Gonçalves, 2014; Arruda-Barbosa et al., 2020; Morey et al., 2021; Medeiros, 2023; Machado, 2023). A aplicação rápida de procedimentos sistematizados altera exponencialmente as curvas de sobrevida (Parente, 2023). Neste contexto, o indivíduo leigo capacitado atua como o primeiro elo da resposta a emergências, deflagrando a cadeia de sobrevivência (Souza, 2019; Bessa, 2021; Agra, 2021; Machado, 2023).

Historicamente, as matrizes das práticas de salvamento estão umbilicalmente ligadas à própria evolução das comunidades humanas. O socorro emergiu do impulso natural e solidário de amparar membros do grupo vulnerabilizados em caçadas ou conflitos tribais, um propósito que originaria, séculos depois, os núcleos da enfermagem e da medicina (Gonçalves, 2014). Nesse sentido, a evolução histórica do Atendimento Pré-Hospitalar (APH) é compartimentada em quatro eras definidoras (NAEMT, 2023). O período antigo possui registros históricos fundamentais, incluindo o relato bíblico no qual o profeta Eliseu teria realizado uma técnica semelhante à respiração boca a boca para salvar uma criança (Velis, 2016) e o Papiro Edwin Smith (c. 2500 a.C.), considerado o primeiro compêndio sistematizado de abordagens ao trauma (NAEMT, 2023). O período de Larrey (final do séc. XVIII) estabeleceu os fundamentos modernos do resgate: atuando como cirurgião de Napoleão, o Barão Dominique Jean Larrey instituiu as "ambulâncias voadoras" em 1792, fundamentando a triagem de múltiplas vítimas, a remoção rápida com tripulação treinada e o suporte contínuo em trânsito (Lopes; Fernandes, 1999; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023). Essa estruturação logística precedeu marcos como a criação da Cruz Vermelha Internacional em 1864 (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023) e o primeiro serviço civil de ambulâncias no Cincinnati General Hospital, em 1865 (NAEMT, 2023).

A era de Farrington (1950-1970) demoliu o dogma da extração imediata sem estabilização. Catalisada pelo artigo Death in a Ditch (1967) e pelo relatório Morte Acidental e Incapacidade (Livro Branco de 1966), a sociedade norte-americana foi impelida a formalizar sistemas de APH e registros como o National Registry of Emergency Medical Technicians (Registro Nacional de Técnicos de Emergência Médica), em 1970 (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023). A era moderna inseriu ferramentas de alta precisão, como a Escala de Coma de Glasgow (1974) e os programas PHTLS e ATLS, ditando a contenção dinâmica de hemorragias (NAEMT, 2023). Consolidaram-se duas vertentes operacionais: o modelo americano de Serviço de Emergência Médica (SEM), focado em paramédicos e intervenção mínima no local (scoop and run), e o modelo francês (SAMU, criado em 1968), centrado no médico regulador e no tratamento avançado na cena (stay and play) (Lopes; Fernandes, 1999; CBMDF, 2022).

A ciência da Reanimação Cardiopulmonar (RCP) evoluiu em paralelo. Após métodos rudimentares de ventilação postural (Silvester e Schafer) e relatos de inversão física (Huerta-Torrijos; Barriga-Pardo; García-Martínez, 2001; Velis, 2016), Friedrich Maass estabeleceu o uso de compressões torácicas vigorosas (100 a 120 por minuto) em 1891 (Velis, 2016). Após a primeira desfibrilação humana bem-sucedida por H. Beck em 1947, a validação da pressão arterial via massagem externa ressurgiu em 1960 com Kouwenhoven, Jude e Knickerbocker, unindo-se às validações de ventilação controlada de Safar, Gordon e Elam. Safar formulou a sequência ABC (Airway, Breathing, Circulation) (Huerta-Torrijos; Barriga-Pardo; García-Martínez, 2001; Velis, 2016; NAEMT, 2023). Com o advento do capacitor de descarga em 1960 (Huerta-Torrijos; Barriga-Pardo; García-Martínez, 2001), os fluxos globais foram uniformizados pela AHA em 1963 e pelo ILCOR em 1992 (Velis, 2016; NAEMT, 2023).

No Brasil, o socorro pré-hospitalar germinou sob matriz militar com o Corpo de Bombeiros Fluminense em 1899 (Magalhães, 2023), consolidando-se a partir de 1970 mediante a necessidade de mitigar lesões secundárias causadas por transporte inadequado. A estruturação do serviço adquiriu robustez operacional na década de 1980 com o modelo de resgate de bombeiros. Em 1990, o Ministério da Saúde instituiu o Programa de Enfrentamento às Emergências e Traumas (PEET), estruturado em quatro eixos operacionais: prevenção ao trauma, atendimento pré-hospitalar, suporte hospitalar e reabilitação física e psicológica (CBMSC, 2022). Concomitantemente, uma cooperação técnica franco-brasileira ao longo da década de 1990 fundamentou a adoção do modelo medicalizado (SAMU), adaptando a enfermagem como vetor essencial da linha de frente (Lopes; Fernandes, 1999; Brasil, 2006).

A articulação da Rede Brasileira de Cooperação em Emergências (1995) e a Resolução CFM nº 1.529/98 do Conselho Federal de Medicina impulsionaram a construção do arcabouço legal contemporâneo do setor. Essa normatização estruturou-se inicialmente com a edição da Portaria MS nº 2.048/2002, que tipificou os componentes do APH fixo e móvel e delineou os níveis de Suporte Básico e Avançado de Vida (CBMDF, 2022). No ano seguinte, a arquitetura jurídica foi ampliada pelas Portarias MS nº 1.863/2003, que estabeleceu a Política Nacional de Atenção às Urgências (PNAU); e pela Portaria MS nº 1.864/2003, que instituiu formalmente o SAMU. A consolidação institucional e operacional consolidou-se em 2004, quando o Decreto Presidencial nº 5.055 garantiu o uso exclusivo do número 192, e a Portaria GM/MS nº 2.657/2004 estabeleceu o dimensionamento técnico, ratificando a autoridade do médico regulador como o eixo central para arbitrar os recursos e o destino dos pacientes de forma regionalizada e hierarquizada (Brasil, 2006; Minayo; Deslandes, 2008).

A efetivação institucional e operacional dessa política materializou-se em 2004. O Decreto Presidencial nº 5.055 garantiu o uso exclusivo do número 192, enquanto a Portaria GM/MS nº 2.657/2004 definiu o dimensionamento técnico do serviço. Essa última normativa foi fundamental para o modelo assistencial por ratificar a autoridade do médico regulador como o eixo central destinado a arbitrar os recursos e o destino dos pacientes, sempre sob uma lógica regionalizada e hierarquizada (Brasil, 2006; Minayo; Deslandes, 2008).

Atualmente, o SAMU opera como um dos dispositivos mais estratégicos do SUS no âmbito da Rede de Atenção às Urgências. Distribuídas nacionalmente, suas Centrais de Regulação cobrem mais de 75% da população brasileira, gerenciando anualmente milhões de chamadas mediante triagem médica rigorosa. O atendimento é executado por equipes multiprofissionais munidas de frota diversificada, que inclui unidades de suporte básico e avançado, motolâncias, ambulanchas e serviços aeromédicos. Diuturnamente, tais recursos são empenhados no manejo de cenários críticos e de extrema complexidade, englobando desde intercorrências obstétricas e paradas cardiorrespiratórias até traumas sistêmicos graves (Brasil, 2016).

Protocolos Técnicos e Parâmetros Operacionais

A doutrina contemporânea é regida pelo princípio da Hora de Ouro (R. Adams Cowley), definindo que a sobrevida no trauma severo exige ressuscitação definitiva nos primeiros 60 minutos (CBMSC, 2022; NAEMT, 2023).

REFERÊNCIAS

AGRA, K. O. A. “SOCORRO, PROFESSOR!”: necessidades de formação continuada em primeiros socorros no contexto da educação profissional e tecnológica, 2021. 238 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica) - Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica, Instituto Federal da Paraíba, João Pessoa, 2021.

AMERICAN HEART ASSOCIATION. Destaques das diretrizes de RCP e ACE de 2020 da American Heart Association. Dallas: AHA, 2020. Disponível em: https://cpr.heart.org/-/media/cpr-files/cpr-guidelines-files/highlights/hghlghts_2020eccguidelines_portuguese.pdf. Acesso em 19 jun. 2026.

ARRUDA-BARBOSA, L.; SALHAH, S.; VASCONCELOS, I. G.; SALES, A. F. G.; SALES, M. C. Oficinas como ferramentas para ensino de primeiros socorros no ensino médio. Revista Brasileira de Educação e Saúde, Pombal, v. 10, n.3, p. 171-176, jul./set. 2020.

BESSA, A. R. Construção e validação de jogo educativo para estudantes do ensino médio sobre primeiros socorros no ambiente escolar, 2021. 84 f. Dissertação (Mestrado Profissional Tecnologia e Inovação em Enfermagem) - Pós-Graduação em Tecnologia e Inovação em Enfermagem, Universidade de Fortaleza, Fortaleza, 2021.

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

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BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: atendimento pré-hospitalar no CBMSC. Florianópolis: CBMSC, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

GONÇALVES, S. E. F. Primeiros Socorros. Pinheiral: IFRJ/Rede e-Tec, 2014.

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HAFEN, B. Q.; KARREN, K. J.; FRANDSEN, K. J. Guia de primeiros socorros para estudantes. 7ª ed. Barueri: Manole, 2002.

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MACHADO, P. H. F. Primeiros socorros na formação de professores dos cursos técnicos em Eletrotécnica e em Edificações do IFPI: contribuições sob o olhar da Lei Lucas, 2021. 172 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica) - Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí, Parnaíba, 2023.

MAGALHÃES, A. H. R. Cartilha educativa digital como ferramenta de apoio ao ensino-aprendizagem de primeiros socorros, 2023. 126 f. Dissertação (Mestrado em Ensino e Formação Docente) - Programa Associado de Pós-Graduação em Ensino e Formação Docente, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Redenção, 2023.

MEDEIROS, L. S. Primeiros socorros na escola: aprender, praticar para agir!, 2023. 100 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica) - Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica, Instituto Federal da Paraíba, João Pessoa, 2023.

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PARENTE, E. P. Interface entre a educação e saúde: caderno orientativo de primeiros socorros, 2023. 112 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica) - Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Manaus, 2023.

SOUZA, A. M. Inserção da Aprendizagem Baseada em Equipes (ABE) com os temas saúde humana e primeiros socorros em aulas de Biologia para ensino médio, 2019. 117 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Biologia) – Pós-graduação em Ensino de Biologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2019.

VELIS, N. B. C. RCP rock. Una herramienta para recordar como salvar vidas. Ensayo comunitario sobre la creación de una canción que permite recordar las maniobras de rcp en el tiempo, 2016. 176 f. Tese (Doutorado em Biomedicina) – Facultad de Medicina, Universidad de Córdoba, Córdoba, 2016.

A Biossegurança compreende o conjunto de normas e medidas preventivas destinadas a prevenir, controlar, reduzir ou eliminar riscos ocupacionais e ambientais inerentes às atividades de urgência, protegendo o socorrista e a vítima ao interromper a cadeia de transmissão de doenças infectocontagiosas (Gonçalves, 2014; CBMSC, 2022; CBMDF, 2022). O rigor no controle de infecções foi estruturado na década de 1980, quando o reconhecimento vírus da imunodeficiência humana (HIV) mudou a percepção do sangue de um mero inconveniente para um risco ocupacional crítico (NAEMT, 2023). Todas as condutas fundamentam-se nas precauções padrão, que exigem a aplicação de medidas de proteção a qualquer paciente, independentemente de diagnóstico prévio (CBMGO, 2016; CBMDF, 2022).

A exposição pode ocorrer por contaminação primária (contato direto no ponto de liberação do patógeno) ou secundária (através de socorristas, vítimas ou equipamentos contaminados) (NAEMT, 2023). As vias de transmissão incluem o ar (tuberculose, gripe), contato com sangue (HIV, hepatites B e C), fluidos corporais em geral, gotículas disseminadas por tosse ou espirro e contato com fezes (Gonçalves, 2014; Brasil, 2016; CBMSC, 2022, 2024). Nesse contexto, a carga viral em fluidos infectados demonstra o grau de risco da atividade: o sangue positivo para HBV (hepatite B) contém de 100 milhões a 1 bilhão de partículas virais/mL, o HCV (hepatite C) concentra 1 milhão/mL, e o HIV varia de 100 a 10.000/mL (NAEMT, 2023).

Em função disso, para o socorrista leigo, a segurança individual é a prioridade máxima e o contato direto com fluidos deve ser evitado a todo custo. Em qualquer intervenção, o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) básicos é essencial; na ausência destes, o socorrista deve improvisar barreiras mecânicas de proteção (Gonçalves, 2014; CBMSC, 2024). Recomenda-se a manutenção de um kit de primeiros socorros acessível, contendo luvas de látex, máscara, soro fisiológico, gaze, ataduras, esparadrapo, tesoura de ponta romba, termômetro e óculos de proteção, além da manutenção vacinal em dia, especialmente contra Hepatite B e Tétano (CBMSC, 2024; NAEMT, 2023).

Tanto para o socorrista leigo quanto para o profissional, a higienização das mãos constitui a medida preventiva universal mais eficaz. O procedimento padrão exige fricção técnica com água e sabão por 40 a 60 segundos, abrangendo palmas, dorsos, entre os dedos, unhas e punhos. Na impossibilidade da lavagem e sem sujidade aparente, o uso de solução alcoólica (fricção por 20 segundos) é indicado, exigindo concentrações de 60% a 80% na forma líquida ou mínimo de 70% em gel. Contudo, o uso exclusivamente alcoólico contínuo é contraindicado, pois o ressecamento da pele cria fissuras que atuam como portas de entrada para microrganismos (CBMGO, 2016; CBMSC, 2022; CBMDF, 2022).

Figura 1 - Técnicas de higiene das mãos: diretrizes para fricção antisséptica com preparação alcoólica e higienização simples com água e sabonete.
Infográfico explicativo que demonstra em paralelo duas técnicas de higiene das mãos. À esquerda, em vermelho, a 'fricção anti-séptica com preparações alcoólicas' (duração de 20 a 30 segundos). À direita, em azul, a 'higienização com água e sabonete' (duração de 40 a 60 segundos). Ambas as técnicas convergem para um quadro central com as etapas de fricção numeradas de 2 a 7, ilustrando detalhadamente os movimentos: fricção das palmas, entrelaçamento dos dedos e espaços intradigitais, fricção do dorso dos dedos, dos polegares, e das polpas digitais e unhas contra a palma. O fluxo de água e sabonete inclui etapas adicionais para molhar, enxaguar, secar com papel toalha e fechar a torneira de forma segura.
Fonte: CBMDF, 2022, p. 24.

No âmbito da atuação profissional institucional (socorristas e profissionais de saúde), as exigências técnicas são mais rigorosas e seguem diretrizes da Lei Nº 11.105/2005 e da NR-32 (Brasil, 2016; CBMSC, 2024). Para esses profissionais, o protocolo operacional padrão determina:

Figura 2 - Diretrizes de isolamento e equipamentos de proteção individual (EPI) recomendados para precauções por gotículas e aerossóis.
Infográfico explicativo sobre medidas de biossegurança, dividido horizontalmente em duas categorias. A primeira linha, intitulada 'Precaução de Gotículas', apresenta quatro ícones com suas respectivas legendas: mãos sendo lavadas em uma pia ('Higienização das mãos'), uma máscara cirúrgica azul ('Máscara cirúrgica (profissional)'), outra máscara azul ('Máscara cirúrgica (paciente durante o transporte)') e uma porta amarela ('Quarto privativo'). A segunda linha, intitulada 'Precaução para Aerossóis', repete exatamente os mesmos ícones e legendas para higienização das mãos, transporte do paciente e quarto privativo, mas diferencia o EPI do profissional, exibindo uma máscara respiratória branca com a legenda 'Máscara PFF2 (N95) (Profissional)'.
Fonte: Adaptado de CBMDF (2022, p. 20).
Figura 3 - Níveis de contingência e paramentação individual (Níveis A, B, C e D) para atendimento a incidentes com materiais perigosos (HazMat).
Quatro fotografias organizadas em quadrantes de A a D que demonstram os níveis de Equipamento de Proteção Individual (EPI) para materiais perigosos. A imagem A (Nível A) mostra uma pessoa totalmente encapsulada em um traje amarelo-limão impermeável com visor transparente e bota laranja, cobrindo o corpo e o equipamento de respiração interna. A imagem B (Nível B) mostra um operador com macacão branco resistente a respingos, luvas pretas, botas laranjas, capacete amarelo e máscara facial acoplada a um cilindro de respiração autônoma externo nas costas. A imagem C (Nível C) exibe um operador em ambiente externo com macacão verde, bota laranja, capacete azul e máscara com respirador purificador de ar. A imagem D (Nível D) apresenta um socorrista à frente de uma ambulância vestindo macacão azul-marinho de serviço padrão, luvas claras, capacete branco e máscara de proteção facial simples.
Fonte: NAEMT, 2023, p. 569.
Figura 4 - Caixa coletora rígida para descarte e gerenciamento seguro de resíduos de serviços de saúde perfurocortantes.
Fotografia em perspectiva de uma caixa coletora de segurança em papelão na cor amarela, utilizada para o descarte de resíduos perfurocortantes. A aba superior de fechamento traseiro está levantada e aberta, revelando a abertura circular no topo para inserção dos materiais. Nas faces visíveis, há inscrições em preto com os termos 'SHARP BOX', 'COLETOR DE MATERIAIS PERFURANTES/CORTANTES' e o aviso de limite 'NÃO ENCHER ACIMA DESTA LINHA' sobre uma linha pontilhada. No canto inferior direito, há o símbolo de risco biológico estampado dentro de um losango com a palavra 'INFECTANTE' e a inscrição 'PERIGO / PELIGRO'.
Fonte: CBMGO, 2016, p. 41.

Em caso de exposição percutânea, de mucosas ou em pele não íntegra a fluidos biológicos, a ocorrência é classificada como urgência médica para qualquer prestador de socorro, seja leigo ou profissional. A conduta imediata universal consiste na lavagem exaustiva da área atingida com água e sabão germicida (utilizando-se estritamente água abundante ou soro fisiológico no caso de mucosas). Após essa higienização inicial, o indivíduo exposto deve buscar uma unidade hospitalar de referência nas primeiras 24 horas para coleta de exames laboratoriais (HIV, Hepatites B e C, Tuberculose) e avaliação para início da Profilaxia Pós-Exposição (PPE). Exclusivamente no âmbito institucional, o profissional de atendimento pré-hospitalar deve, adicionalmente, realizar a notificação imediata à Regulação Médica e providenciar a abertura da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) (Brasil, 2016; CBMSC, 2022; CBMDF, 2022).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Manual de capacitação em atendimento básico a emergências. 2ª ed. Florianópolis: CBMSC, 2024.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: atendimento pré-hospitalar no CBMSC. Florianópolis: CBMSC, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

GONÇALVES, S. E. F. Primeiros Socorros. Pinheiral: IFRJ/Rede e-Tec, 2014.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

A avaliação da cena de uma emergência constitui a etapa primária e inegociável na prestação dos primeiros socorros. Antes de qualquer contato com o paciente, o socorrista deve compreender o contexto do evento para garantir uma intervenção segura e eficaz, evitando o surgimento de novas vítimas (NAEMT, 2023; CBMSC, 2024). A prioridade absoluta de segurança segue uma hierarquia estrita: primeiramente assegura-se a integridade do próprio socorrista, seguida pela proteção da equipe e de terceiros e, por fim, o atendimento à vítima (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Gonçalves, 2014; CBMSC, 2024). Esse controle inicial exige que o profissional assuma a liderança da ocorrência, mantenha a tranquilidade técnica e isole a área de curiosos. A colaboração de transeuntes é válida, desde que gerenciada por meio de instruções operacionais breves, objetivas e claras (Brasil, 2003, 2016).

O dimensionamento do local deve ser imediato, fundamentando-se na Regra dos Três "S" - Cena (Scene), Segurança (Security) e Situação (Situation) - e na análise da cinemática do trauma para prever possíveis lesões internas ocultas (CBMGO, 2016; CBMSC, 2021). Adicionalmente, em ocorrências envolvendo intoxicações ou crises psiquiátricas, aplica-se o Método ACENA, que demanda a observação criteriosa do Ambiente, potenciais Conflitos, a Expectativa da rede de apoio, o Nível de consciência do paciente e sinais de Agressividade. Tais quadros exigem o afastamento cauteloso de armas e medicações, dada a volatilidade do comportamento da vítima (Brasil, 2016; CBMGO, 2016).

Para a condução segura dessa etapa, sugere-se adotar uma avaliação em três passos sistemáticos:

Concomitante à análise do ambiente, a adoção rigorosa de medidas de biossegurança é imprescindível. O socorrista deve empregar precauções universais para bloquear o contato direto com fluidos corporais, tratando todo cenário de emergência como área de contaminação cruzada (CBMSC, 2024). O uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), como luvas descartáveis (com troca obrigatória a cada paciente), máscara cirúrgica e óculos de proteção, compõe a barreira profilática primária. Em contextos de resgate especializado, exige-se também a utilização de capacetes, coletes refletivos e botas antiperfurantes, aliados ao uniforme operacional devidamente fechado (CBMSC, 2022). Além da barreira física, a higienização contínua das mãos com água e sabão ou fricção com álcool gel a 70% e a manutenção de um esquema vacinal atualizado - com ênfase em Hepatite B e Tétano - representam as intervenções mais eficientes na prevenção de doenças infectocontagiosas (CBMGO, 2016; CBMSC, 2024).

O gerenciamento de riscos dinâmicos exige táticas específicas e monitoramento contínuo (consciência situacional), pois cenários inicialmente estáveis podem se deteriorar abruptamente (NAEMT, 2023). Em rodovias, o veículo de apoio - ou a viatura de emergência - deve ser posicionada a uma distância mínima de 15 metros do evento, atuando como anteparo físico, reforçada por sinalização com cones, triângulo, entre outros, e o desembarque nunca deve ser realizado pelo lado voltado para o fluxo ativo de veículos (Gonçalves, 2014; NAEMT, 2023). Em incidentes com produtos perigosos ou focos de incêndio, a aproximação ocorre a barlavento (com o vento pelas costas) e preferencialmente em aclive, respeitando as Zonas de Controle (Quente, Morna e Fria) e delegando a intervenção a profissionais com proteção respiratória autônoma (Brasil, 2016; NAEMT, 2023; CBMSC, 2024). Em ocorrências com indícios de crime, o socorrista deve preservar a cena intacta, isolar vestígios e alterar o ambiente exclusivamente nos limites necessários para manobras de suporte vital imediato (Brasil, 2006, 2016; NAEMT, 2023).

Figura 1 - Esquema de sinalização e posicionamento defensivo de viatura de emergência em cena de acidente automobilístico.
Ilustração esquemática em estilo plano demonstrando o isolamento de um acidente de trânsito em uma rodovia. À direita, dois carros (um laranja e um azul-claro) estão colididos de frente. À esquerda dos veículos, posicionada como barreira de proteção na mesma faixa, está uma ambulância branca com uma cruz vermelha na lateral e sinalização luminosa acionada. Uma linha de cota indica a distância de '15 m' entre a ambulância e os carros batidos. À retaguarda da ambulância, quatro cones de sinalização laranjas estão dispostos diagonalmente para desviar o tráfego. O cone mais distante está destacado por um círculo com uma seta apontando para o texto 'Cones de sinalização'.
Fonte: Gonçalves, 2014, p. 35.

Uma vez neutralizados os perigos locais, avança-se para a abordagem direta ao paciente. Para o socorrista leigo, esta aproximação deve respeitar o Princípio da Imobilidade: a vítima é assistida na posição em que foi encontrada e só será movimentada de forma emergencial diante de um risco iminente de morte não controlável, como fogo, colapso estrutural ou explosão (CBMSC, 2024). O contato primário envolve a observação visual em busca de hemorragias exanguinantes e a avaliação da responsividade (CBMSC, 2021). Estando a vítima consciente, o socorrista deve promover a estabilização emocional por meio de comunicação clara, investigando queixas de dor e transmitindo segurança, fator que influencia positivamente as condições sistêmicas do paciente até o suporte avançado (Brasil, 2003; CBMSC, 2024). Por fim, quando a ocorrência gerar um número de vítimas superior à capacidade operacional imediata do socorrista ou da equipe, implementa-se o Método START. Essa triagem rápida classifica os pacientes avaliando deambulação, padrão respiratório, perfusão e nível de consciência em um limite estrito de até 60 segundos por vítima, garantindo a priorização clínica com base nas reais chances de sobrevida (Brasil, 2016; CBMGO, 2016; Freitas, 2020).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Regulação médica das urgências. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Manual de capacitação em atendimento básico a emergências. 2ª ed. Florianópolis: CBMSC, 2024.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: atendimento pré-hospitalar no CBMSC. Florianópolis: CBMSC, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: suporte básico à vida. Florianópolis: CBMSC, 2021.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

FREITAS, G. B. L. Trauma e emergência. Irati: Pasteur, 2020.

GONÇALVES, S. E. F. Primeiros Socorros. Pinheiral: IFRJ/Rede e-Tec, 2014.

HAFEN, B. Q.; KARREN, K. J.; FRANDSEN, K. J. Guia de primeiros socorros para estudantes. 7ª ed. Barueri: Manole, 2002.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

A prestação de primeiros socorros exige um reconhecimento preciso dos sinais emitidos pelo corpo humano, os quais fornecem informações indispensáveis para a avaliação clínica inicial da vítima. Para uma atuação eficaz e segura, é imperativo compreender a dinâmica das funções e dos sinais vitais, bem como dos chamados sinais de apoio, que fundamentam a tomada de decisão no atendimento emergencial (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Brasil, 2003). Por essa razão, a avaliação física deve ser conduzida de forma minuciosa, no sentido céfalo-caudal (da cabeça aos pés), garantindo que indícios menos evidentes de trauma ou adoecimento não passem despercebidos (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; CBMSC, 2024).

Cada lesão ou emergência médica apresenta manifestações clínicas específicas, classicamente divididas em sinais e sintomas. Os sintomas são sensações subjetivas relatadas pela própria vítima - como dor, náuseas, vertigem e mal-estar -, sendo importante notar que dores intensas podem mascarar outras condições subjacentes severas (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; CBMSC, 2024). Em contrapartida, os sinais vitais constituem indicadores objetivos do funcionamento sistêmico do organismo (respiração, pulso, pressão arterial e temperatura) e podem ser verificados pelos sentidos do socorrista. Alterações nessas variáveis refletem o comprometimento das funções biológicas primárias, enquanto sinais de apoio adicionais, como sangramentos, edemas, sudorese e palidez, complementam o raciocínio diagnóstico preliminar (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Brasil, 2003; CBMSC, 2024).

É fundamental destacar que a interpretação desses parâmetros varia substancialmente conforme a faixa etária. Do ponto de vista legal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define como criança a pessoa com até doze anos incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos. Contudo, em protocolos operacionais de saúde, adotam-se categorizações mais segmentadas: a Organização Mundial da Saúde (OMS) define o lactente entre 29 dias e 1 ano; já no âmbito do atendimento pré-hospitalar, o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina considera lactente o indivíduo com até 1 ano, e criança aquele entre 1 e 8 anos (CBMSC, 2024).

A respiração (ou ventilação) é o processo fisiológico automático responsável pela oxigenação sanguínea e eliminação do dióxido de carbono por meio da hematose. A avaliação da função respiratória exige a análise da frequência (número de movimentos ou incursões respiratórias por minuto - mrm ou irm), do ritmo, da profundidade e do uso de musculatura acessória (Brasil, 2003; Gonçalves, 2014; CBMDF, 2022). O padrão ventilatório normal em repouso denomina-se eupneia. Qualquer dificuldade respiratória perceptível é classificada como dispneia, caracterizada por respiração superficial e aumento de amplitude, enquanto a ausência total de movimentos ventilatórios configura a apneia (CBMSC, 2021).

Figura 1 - Movimentos respiratórios.
Diagrama da mecânica respiratória mostrando inspiração e expiração. Na inspiração, o tórax se expande e o diafragma desce para a entrada de ar nos pulmões. Na expiração, o tórax se contrai e o diafragma sobe, expulsando o ar dos pulmões.
Fonte: CBMSC, 2024, p. 105.

Para aferir a ventilação adequadamente, o socorrista deve observar os ciclos sem que a vítima perceba a avaliação, evitando que ela controle a respiração de forma voluntária. Se o ritmo for regular, conta-se por trinta segundos e multiplica-se o valor por dois; caso seja irregular, a contagem deve abranger um minuto completo (Brasil, 2016; CBMDF, 2022). O socorrista também deve estar alerta para sinais de esforço respiratório, especialmente em pediatria, tais como batimento de asa de nariz, retração de fúrcula, tiragem intercostal, respiração em balancim e gemência (Brasil, 2016; CBMDF, 2022). Os parâmetros de normalidade e os limiares de gravidade estabelecidos são:

O pulso reflete a expansão e o relaxamento das artérias provocados pela onda de sangue ejetada pela contração cardíaca. Ele é mensurado em batimentos por minuto (bpm) e avaliado quanto à sua regularidade (ritmo) e amplitude, podendo apresentar-se cheio (forte) ou filiforme (fraco e fino) (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Brasil, 2003, 2016; CBMDF, 2022; CBMSC, 2024). A palpação deve ser feita utilizando os dedos indicador e médio, evitando-se o uso do polegar, que possui pulsação própria e pode gerar falsas leituras (Brasil, 2003). Empregam-se pulsos centrais - carotídeo em adultos/crianças e braquial ou femoral em lactentes - ou pulsos periféricos, como o radial, pedioso, poplíteo e tibial posterior (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMSC, 2024).

Figura 2 - Pontos anatômicos para aferição do pulso.
Ilustração anatômica mostrando os principais pontos de palpação do pulso arterial no corpo humano: artéria carótida no pescoço, artéria braquial no braço, artéria radial no punho, artéria femoral na virilha, artéria tibial posterior no tornozelo e artéria dorsal do pé, com detalhes ampliados da posição dos dedos para a palpação.
Fonte: CBMSC, 2024, p. 101.

A frequência cardíaca normal varia conforme a idade:

Intimamente relacionada ao pulso, a pressão arterial constitui um parâmetro central para a avaliação do estado hemodinâmico do indivíduo. Ela é definida como a força exercida pelo sangue contra as paredes internas das artérias, sendo influenciada pela intensidade da contração cardíaca, pela elasticidade do sistema arterial, pelo volume sanguíneo circulante e pela viscosidade do sangue (Brasil, 2003; Gonçalves, 2014; CBMSC, 2024). Este sinal vital compreende dois valores mensurados em milímetros de mercúrio (mmHg): a pressão sistólica e a pressão diastólica (Gonçalves, 2014; CBMSC, 2024). A pressão sistólica manifesta-se como o ponto máximo da força arterial, resultante da contração vigorosa dos ventrículos (sístole). Nesse momento, ocorre a expulsão do volume sanguíneo para as artérias pulmonares (pelo ventrículo direito) e para a circulação sistêmica (pelo ventrículo esquerdo). Por outro lado, a pressão diastólica representa o valor mínimo da pressão arterial, coincidindo com a fase de relaxamento dos músculos cardíacos (diástole), período em que os ventrículos se expandem, permitindo o influxo de sangue proveniente dos átrios (Gonçalves, 2014; NAEMT, 2023).

Figura 3 - Esquema ilustrativo do sistema circulatório.
Diagrama esquemático da circulação sanguínea humana mostrando o coração, os pulmões e os principais vasos sanguíneos. O sangue venoso (em azul) retorna das partes superior e inferior do corpo pelas veias ao coração, segue para os pulmões para oxigenação e retorna ao coração. O sangue arterial (em vermelho) é então bombeado pela aorta para os órgãos, cabeça, braços, tronco e pernas. O esquema identifica artérias, arteríolas, capilares, vênulas, veias, aorta, coração e pulmões, com setas indicando o sentido do fluxo sanguíneo.
Fonte: NAEMT, 2023, p. 54.

A relação entre a frequência cardíaca e a pressão sistólica fornece uma métrica crucial na identificação de hemorragias: o Índice de Choque (IC). Valores normais deste índice situam-se abaixo de 0,7 (NAEMT, 2023); quando ≥0,8, há indicativo de sangramento ativo, e valores >1,0 sugerem lesão importante com potencial necessidade transfusional (CBMDF, 2022). Contudo, no contexto dos primeiros socorros prestados por leigos, a disseminação de orientações sobre a técnica de mensuração da pressão arterial é desaconselhada por diretrizes oficiais. Essa restrição deve-se ao alto potencial de interpretações errôneas dos resultados, o que poderia culminar em diagnósticos não fundamentados e intervenções inadequadas no ambiente pré-hospitalar (Brasil, 2003). Diante do exposto, a metodologia de aferição e os respectivos parâmetros de normalidade não serão detalhados neste material.

A temperatura corporal constitui um relevante indicativo da atividade metabólica do organismo, pois o calor gerado pelas reações é distribuído por meio dos tecidos e da circulação sanguínea (Brasil, 2003). Alterações nesse parâmetro podem estar associadas a diferentes condições clínicas ou ambientais: a elevação anormal decorre de processos febris ou exposição excessiva ao calor, enquanto a diminuição significativa pode relacionar-se a lesões na medula espinhal, exaustão térmica ou exposição prolongada ao frio (Hafen; Karren; Frandsen, 2002). Fisiologicamente, o organismo tenta regular essas oscilações induzindo vasoconstrição periférica e tremores para reter calor em quadros de hipotermia, ou promovendo vasodilatação e estimulação das glândulas sudoríparas frente à elevação térmica (CBMDF, 2022). A aferição instrumental via termômetro na região axilar demanda de 3 a 5 minutos, sendo contraindicada na presença de queimaduras no tórax, fraturas nos membros superiores ou inflamações locais; paralelamente, medições orais (cuja média normal é de 36,2 a 37 ºC) são estritamente vetadas em crianças pequenas ou vítimas inconscientes (Brasil, 2003, 2016). Em contextos de emergência, nos quais o uso de termômetros não é viável, estima-se a temperatura cutânea de forma subjetiva, utilizando o dorso da mão sobre regiões como testa, tórax ou abdômen da vítima, o que permite uma avaliação tátil aproximada (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; CBMSC, 2024). Os parâmetros termométricos axilares classificam-se em:

Como complemento vital à avaliação hemodinâmica, a análise da perfusão periférica - realizada por meio da cor, da umidade da pele e do fluxo capilar - atua como um preditor ágil da distribuição sanguínea sistêmica. Uma pele rósea e seca denota boa oxigenação tecidual (CBMSC, 2021; NAEMT, 2023). Em contrapartida, a coloração pálida ou acinzentada evidencia insuficiência circulatória decorrente de estados de choque ou hipovolemia. Essa palidez frequentemente surge associada a uma pele úmida, pegajosa e diaforética, resultado direto da ativação do sistema nervoso simpático frente ao estresse circulatório (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023; CBMSC, 2021, 2024). Em crianças, o choque também pode manifestar-se através de pele moteada (com aspecto de mármore) e perda da elasticidade cutânea, verificada pelo turgor pastoso típico da desidratação severa (Brasil, 2016). Já a cianose (tonalidade azulada nas extremidades e perioral) indica hipóxia tissular grave (CBMDF, 2022; CBMSC, 2021, 2024), e a pele ruborizada acusa febre, intermação ou intoxicações (CBMSC, 2021, 2024).

Para validar e quantificar essas alterações visuais periféricas, utiliza-se o Tempo de Enchimento Capilar (TEC), um método prático que afere diretamente a eficiência da circulação microvascular. O procedimento consiste em pressionar o leito ungueal (unha) da vítima até que fique esbranquiçado e, ao soltar, cronometrar o retorno da coloração normal. O tempo de reperfusão deve ser de até dois segundos (≤2s). Um retorno lento, superior a esse limiar, corrobora a suspeita de hipoperfusão sistêmica e estado de choque, embora o socorrista deva considerar que temperaturas ambientais muito frias, doenças vasculares prévias e o uso de determinadas medicações podem interferir negativamente na precisão deste teste (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Brasil, 2016; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

Figura 4 - Técnica de compressão do leito ungueal para avaliação do TEC
Ilustração em close-up de duas mãos com tons de pele parda. O polegar da mão esquerda pressiona diretamente a unha (leito ungueal) do dedo indicador da outra mão, demonstrando o teste de perfusão. Há uma barra vertical azul-clara ao fundo.
Fonte: CBMSC, 2021, p. 63.

Como recurso tecnológico complementar à avaliação respiratória e hemodinâmica, a oximetria de pulso afere de forma não invasiva a frequência cardíaca e a saturação de oxiemoglobina arterial (SpO2). Em condições normais ao nível do mar, os valores esperados são iguais ou superiores a 95%, enquanto leituras abaixo de 94% indicam hipóxia e resultados inferiores a 90% configuram emergência grave (CBMSC, 2021; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023). Embora seja um instrumento prático, sua precisão pode ser criticamente comprometida por fatores como esmaltes escuros na lâmina ungueal, estados de choque ou hipoperfusão sistêmica, tremores e até intoxicação por monóxido de carbono - esta última gerando resultados falsamente elevados (Brasil, 2016; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022). Por essa razão, a oximetria atua como um dado adicional e nunca deve substituir o julgamento clínico: se o aspecto visual da vítima sugerir hipoxemia, o tratamento deve ser priorizado independentemente dos valores exibidos no monitor (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

Figura 5 - Monitorização da SpO2 e frequência cardíaca via oximetria de pulso.
Fotografia em close-up de um oxímetro de pulso digital portátil, de cor azul, fixado no dedo indicador de uma mão com unhas pintadas de esmalte preto. O visor do aparelho está ligado e exibe o valor de saturação de oxigênio (SpO2) em 98% e a frequência cardíaca em 85 batimentos por minuto (PRbpm), junto a uma curva pletismográfica azul. O fundo é de tecido branco.
Fonte: CBMSC, 2021, p. 46.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Manual de capacitação em atendimento básico a emergências. 2ª ed. Florianópolis: CBMSC, 2024.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: suporte básico à vida. Florianópolis: CBMSC, 2021.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

GONÇALVES, S. E. F. Primeiros Socorros. Pinheiral: IFRJ/Rede e-Tec, 2014.

HAFEN, B. Q.; KARREN, K. J.; FRANDSEN, K. J. Guia de primeiros socorros para estudantes. 7ª ed. Barueri: Manole, 2002.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

Para além da aferição estrita dos sinais vitais primários, a avaliação clínica abrangente de uma vítima em situação de emergência exige a investigação criteriosa dos sinais de apoio. Embora não afiram de maneira direta a mecânica de um único órgão, esses parâmetros revelam a resposta fisiológica global do organismo frente a disfunções severas, como hemorragias agudas, paradas cardiorrespiratórias ou traumatismos cranioencefálicos (TCE). A conjugação de todas essas informações permite a detecção precoce de deterioração funcional, alicerçando-se fundamentalmente na análise do nível de consciência, no reflexo pupilar e na integridade das respostas sensório-motoras (Brasil, 2003; CBMSC, 2024).

O nível de consciência é o grau de alerta comportamental do indivíduo e constitui o sinal isolado mais seguro e sensível na avaliação precoce do sistema nervoso. A abordagem inicial deve ocorrer, sempre que possível, dentro do campo visual do paciente para facilitar o contato. Se a vítima for capaz de sustentar um diálogo coerente e lógico ao ser indagada sobre sua identidade, idade e localização espacial, infere-se que o rebaixamento cognitivo não é severo (CBMDF, 2022; CBMSC, 2024). Contudo, alterações bruscas exigem conduta iminente: clinicamente, o socorrista deve assumir a premissa de que qualquer paciente confuso, agressivo ou combativo encontra-se em quadro de hipóxia cerebral e choque até que se prove o contrário (NAEMT, 2023).

Para uma triagem veloz, adota-se rotineiramente a escala AVDI, que estratifica a responsividade em quatro níveis práticos: Alerta, resposta a estímulos Verbais, resposta a estímulos Dolorosos e Inconsciência (Brasil, 2016). Quando analisado de forma sistemática, o espectro da consciência apresenta estágios graduais de degradação (Gonçalves, 2014; Brasil, 2016):

A fim de conferir métrica quantitativa a essa avaliação neurológica e permitir o acompanhamento de sua evolução clínica, emprega-se a Escala de Coma de Glasgow (ECG) (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023). A pontuação total transita de 3 (gravidade máxima e ausência de resposta) a 15 (paciente alerta, sem comprometimento funcional incapacitante). Para lactentes e crianças de tenra idade, adota-se a Escala Pediátrica, que baliza a pontuação por meio do choro, da capacidade de sorrir e da movimentação espontânea (Gonçalves, 2014; Brasil, 2016; NAEMT, 2023). A escala clássica é fragmentada na análise de três vertentes da responsividade (Gonçalves, 2014; CBMDF, 2022; CBMSC, 2022; NAEMT, 2023):

O escore final da escala é calculado mediante a soma da melhor resposta observada em cada um dos três parâmetros. Esse resultado classifica a magnitude do Traumatismo Cranioencefálico em níveis: leve (13 a 15), moderado (9 a 12) e grave (3 a 8). É mandatório destacar que uma pontuação ≤8 indica incapacidade de proteção ventilatória, exigindo manejo definitivo das vias aéreas e intubação imediata (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMSC, 2022; NAEMT, 2023). A evolução do protocolo trouxe ainda a métrica ECG-P, que agrega a reatividade pupilar ao valor original: do somatório obtido na ECG, subtrai-se 2 pontos caso ambas as pupilas sejam irreativas à luz, 1 ponto se a não-reatividade for unilateral, e 0 caso ambas preservem a reatividade adequada (CBMDF, 2022).

Figura 1 - Comparação entre respostas motoras de flexão normal e flexão anormal após estímulo físico.
Ilustração comparando respostas motoras à flexão após estímulo físico. À esquerda, flexão anormal caracterizada por movimento lento e estereotipado, aproximação do braço ao tórax, rotação do antebraço, extensão do membro inferior e fechamento do polegar. À direita, flexão normal caracterizada por movimento rápido e variável, com afastamento relativo do braço em relação ao corpo. Setas indicam as direções dos movimentos.
Fonte: CBMSC, 2022, p. 18.

A avaliação pupilar é um recurso contíguo de alta relevância neurológica. As pupilas regulam a entrada luminosa ocular e, em condições de normalidade, apresentam diâmetros regulares e simétricos. A aferição de seu estado exige a incidência de um feixe de luz de forma lateral em um ambiente obscurecido (Brasil, 2003; CBMSC, 2022, 2024). Constatar fotorreatividade lenta ou completamente ausente é um alerta crítico, sugerindo isquemia aguda do tronco cerebral ou emergência neurológica de elevada mortalidade (CBMSC, 2022; NAEMT, 2023). O reflexo pupilar é classificado de acordo com suas características morfológicas:

Figura 2 - Parâmetros para avaliação pupilar.
Ilustração comparativa dos principais tipos de pupilas: isocóricas (mesmo diâmetro e reação normal à luz), midriáticas (dilatadas), anisocóricas (diâmetros diferentes), mióticas (contraídas) e discóricas (deformadas), exibidas em pares de olhos com exemplos visuais de cada condição.
Fonte: CBMSC, 2022, p. 19.

Simultaneamente aos parâmetros encefálicos, a integridade do eixo espinhal é mensurada pela motilidade e sensibilidade corporal. O rastreio motor grosso deve ser executado solicitando que a vítima aperte vigorosamente as mãos do socorrista e efetue a flexão e extensão dos pés (movimento de pedal) (CBMSC, 2022). Um rastreio periférico refinado exige testar o comportamento dos nervos primários: extensão do punho (Radial), oposição do polegar (Mediano), abdução dos dedos (Ulnar), extensão da articulação do joelho (Femoral) e mobilidade dos tornozelos (Ciático) (NAEMT, 2023). A perda do movimento voluntário costuma ocorrer em paralelo com a supressão da sensibilidade na área afetada, o que exige a palpação dos membros periféricos associada ao questionamento sobre a percepção tátil pelo paciente (CBMSC, 2022, 2024). Fatores externos, como estados histéricos agudos ou intoxicação alcoólica e medicamentosa, podem camuflar esses sintomas e prejudicar a avaliação tátil inicial (Brasil, 2003).

A identificação clínica de déficits focais denota interrupções neurofisiológicas localizadas. A hemiplegia, que é a perda de movimento circunscrita a um único dimídio (metade) do corpo, acompanhada ou não de paralisia facial, é um sintoma robusto de AVE ou lesões num único hemisfério cerebral (NAEMT, 2023; CBMSC, 2024). Em contrapartida, comprometimentos parciais (paresia) ou totais (paralisia) em simetria sugerem Traumatismo Raquimedular (TRM). A tetraplegia aponta para o colapso medular na região da coluna cervical, enquanto a paraplegia indica danos em porções mais distais, manifestando-se frequentemente por formigamentos (parestesias) e dormência. Frente a esse risco, o manejo no atendimento pré-hospitalar dita que toda e qualquer pessoa inconsciente seja tratada preventivamente como portadora de lesão vertebromedular, impedindo-se manipulações bruscas que agravem o trauma (Brasil, 2003; CBMSC, 2022, 2024). Em vítimas pediátricas, redobra-se a atenção para a ocorrência da SCIWORA (lesão medular espinhal sem anormalidade radiográfica), na qual o choque produz déficits neurológicos sem fratura óssea visível (NAEMT, 2023).

Ademais, a degeneração profunda do sistema nervoso central e periférico gera manifestações corporais severas. A detecção do priapismo, definido como uma ereção peniana mantida de forma involuntária logo após um grande impacto mecânico, é reflexo imediato de lesão grave na medula espinhal ou prenúncio de choque neurogênico instaurado (CBMSC, 2022; NAEMT, 2023). A deterioração no tronco cerebral e no diencéfalo se converte externamente em posturas patológicas, perceptíveis como a decorticação (contração e flexão inflexível dos braços em direção ao peito) e a descerebração (rigidez global em extensão dos membros) (CBMSC, 2022; NAEMT, 2023). Por fim, a progressão catastrófica de edemas ou hemorragias fechadas produz a elevação crítica da pressão intracraniana, cujo quadro é sinalizado pela manifestação da Tríade de Cushing, uma combinação patognomônica composta por forte elevação da pressão arterial, queda abrupta da frequência cardíaca (bradicardia) e respiração francamente irregular e patológica (CBMDF, 2022).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Manual de capacitação em atendimento básico a emergências. 2ª ed. Florianópolis: CBMSC, 2024.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: emergências traumáticas. Florianópolis: CBMSC, 2022. Disponível em: https://www.cbm.sc.gov.br/index.php/biblioteca/manuais-cbmsc/category/99-manuais-teoricos-de-pesquisa?download=901:aph-ti-emergencias-traumaticas-2022. Acesso em 18 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

GONÇALVES, S. E. F. Primeiros Socorros. Pinheiral: IFRJ/Rede e-Tec, 2014.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

O mnemônico XABCDE constitui um processo linear e longitudinal utilizado para sistematizar a abordagem inicial a vítimas em situação crítica, estabelecendo uma sequência de prioridades no atendimento pré-hospitalar para identificar e corrigir condições com potencial risco à vida em curto prazo. A prioridade central da sequência é proteger a capacidade de oxigenação do corpo e a entrega de oxigênio aos tecidos pelos eritrócitos. Em emergências puramente clínicas, utiliza-se a sequência ABCD; contudo, no contexto do trauma, a hemorragia exsanguinante (X) precede o manejo das vias aéreas (CBMSC, 2021; CBMDF, 2022; CBMES, 2022; Magalhães, 2023; NAEMT, 2023).

A avaliação primária deve ser realizada rapidamente, idealmente em 10 segundos ao se apresentar ao paciente. Cada etapa deve ser concluída antes de passar para a próxima, a menos que haja equipe suficiente para execução simultânea das intervenções (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMGO, 2016; NAEMT, 2023).

Embora a abordagem seja estritamente sequencial, seus componentes podem ser executados simultaneamente. Ao formular perguntas à vítima, o socorrista verifica a permeabilidade das vias aéreas (A), a respiração (B) e o nível de consciência (D). Simultaneamente, pode palpar o pulso radial para avaliar a circulação (C) e realizar uma inspeção visual rápida para identificar hemorragias (X), acionando um segundo socorrista para intervenções conjuntas. Essa abordagem integrada e de reavaliação contínua garante o reconhecimento ágil de condições sistêmicas fatais (NAEMT, 2023).

Etapa X – Hemorragia Exsanguinante (eXsanguination)

O objetivo desta etapa é reconhecer ameaças imediatas e irreversíveis causadas por perda massiva de sangue, frequentemente de origem arterial e localizada em extremidades, couro cabeludo ou regiões juncionais. Em situações com recursos limitados, o controle da hemorragia deve ocorrer antes mesmo da avaliação das vias aéreas e da restrição de movimento da coluna (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

Técnicas admitidas e progressão de conduta:

Figura 1 - Aplicação de torniquete em membro superior para controle de hemorragia.
Ilustração mostrando a aplicação de um torniquete em um braço com sangramento, ajustado proximalmente ao local da lesão para interromper o fluxo sanguíneo e controlar a hemorragia.
Fonte: CBMES, 2022, p. 78.
Figura 2 - Demonstração da técnica de preenchimento de ferida.
Ilustração mostrando a sequência da técnica de preenchimento de ferida com gaze: mãos enluvadas posicionam e acomodam cuidadosamente a gaze estéril no leito da ferida, seguida da aplicação de compressão para garantir o preenchimento adequado.
Fonte: CBMDF, 2022, p. 119.

Etapa A – Vias Aéreas e Estabilização da Coluna Cervical (Airway)

A avaliação rápida determina a permeabilidade das vias aéreas - uma resposta verbal adequada da vítima indica vias aéreas pérvias e respiração presente. Durante toda a avaliação e intervenção, é obrigatória a estabilização manual da coluna cervical em posição neutra. Em pacientes politraumatizados, deve-se presumir lesão medular, evitando qualquer hiperextensão do pescoço (CBMDF, 2022; CBMES, 2022; NAEMT, 2023). A abertura das vias aéreas exige técnicas específicas conforme o cenário:

Figura 3 - Manobras de abertura de vias aéreas.
Ilustração de duas manobras de abertura das vias aéreas em pessoa deitada: à esquerda, elevação do ângulo da mandíbula; à direita, inclinação da cabeça com elevação do queixo.
Fonte: Adaptado de Bernoche et al. (2019, p. 462).
Figura 4 - Dispositivos e técnicas de manejo das vias aéreas: cânula orofaríngea e intubação endotraqueal.
Ilustração de dispositivos e técnicas de manejo de vias aéreas. À esquerda, exemplos de tubo de Guedel e tubo de Berman com indicação de suas partes. Ao centro, cânula orofaríngea inserida em paciente em posição supina, mantendo a permeabilidade das vias aéreas. À direita, procedimento de intubação endotraqueal realizado com laringoscópio.
Fonte: Adaptado de Aehlert (2018, p. 98, 120).

Etapa B – Respiração e Ventilação (Breathing)

Garantida a via aérea, expõe-se o tórax e abdome para avaliar simetria, expansibilidade e sinais de esforço, como uso de musculatura acessória (retração de fúrcula, batimento de asa de nariz). A frequência respiratória normal no adulto é de 12 a 20 IRPM (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMES, 2022; NAEMT, 2023).

Figura 5 - Representação da aplicação de curativo oclusivo em caso de pneumotórax aberto.
Paciente em decúbito lateral sobre piso de madeira, apresentando na região lateral do tórax um curativo oclusivo improvisado com material plástico fixado por fita adesiva em três lados, utilizado como medida de emergência para tratamento de pneumotórax aberto.
Fonte: Adaptado de CBMSC (2022, p. 42).

Etapa C – Circulação e Perfusão (Circulation)

A avaliação do débito cardíaco e perfusão é realizada mediante a palpação de pulsos periféricos (carotídeo e radial em adultos/crianças; braquial em lactentes) e inspeção da coloração, temperatura e umidade da pele. A métrica de normalidade para o tempo de reenchimento capilar é ≤2 segundos (Brasil, 2016; CBMES, 2022; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

Em vítimas inconscientes, a verificação do pulso e da função cardíaca deve ocorrer em, no máximo, 10 segundos, compreendendo que a perda do pulso radial com a manutenção do pulso central sugere hipotensão profunda (Brasil, 2016; NAEMT, 2023). No adulto, a frequência cardíaca (FC) normal situa-se entre 60 a 100 bpm; na pediatria, a constatação de pulso com FC ≤60 bpm associada à má perfusão exige o início imediato de compressões torácicas (Brasil, 2016). Para o monitoramento de adultos, utiliza-se o Índice de Choque (FC/PAS), cujo valor ≥0,9 sinaliza risco crítico de mortalidade, devendo o socorrista atentar-se também para condições traumáticas específicas, como o tamponamento cardíaco (identificado pela tríade de Beck), a contusão miocárdica e a parada súbita por impacto torácico direto (commotio cordis) (NAEMT, 2023).

Tratando-se de trauma, a hemorragia é a principal causa evitável de choque. Os sinais de choque incluem taquicardia (primeiro sinal) - cuja gravidade pode ser mascarada pelo uso de betabloqueadores em idosos, pela bradicardia basal de atletas ou pelo aumento fisiológico da FC em gestantes (NAEMT, 2023) -, vasoconstrição periférica (pele fria e pegajosa), hipotensão e alteração do nível de consciência. Hemorragias internas ocorrem frequentemente no tórax, abdome, pelve, retroperitônio e coxas/fêmur. Tais áreas devem ser palpadas e, havendo suspeita, o controle pré-hospitalar é limitado, exigindo transporte imediato para intervenção cirúrgica (Brasil, 2003; CBMGO, 2016; CBMDF, 2022; CBMES, 2022; NAEMT, 2023). A reposição volêmica com cristaloides aquecidos (bolus de 250ml a 500ml) busca manter a pressão arterial sistólica PAS ≥90 mmHg (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

Para referência da perda volêmica, utiliza-se a Classificação de Hemorragia do ATLS: Classe I (<750ml / <15%), Classe II (750-1500ml / 15-30%), Classe III (1500-2000ml / 30-40%), Classe IV (>2000ml / >40%) (Freitas, 2020).

Etapa D – Deficiência Neurológica (Disability)

A diminuição do nível de consciência em vítimas de trauma (confusão, agressividade) deve ser tratada como hipóxia, hipoperfusão ou lesão do sistema nervoso central até prova em contrário. Fatores secundários incluem intoxicação, distúrbios metabólicos e hipoglicemia (a glicemia capilar deve ser aferida para descarte) (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

A avaliação da função neurológica é balizada pela Escala de Coma de Glasgow (ECG), que quantifica a abertura ocular, resposta verbal e resposta motora (pontuação de 3 a 15). Simultaneamente, avaliam-se as pupilas quanto a tamanho (isocóricas, anisocóricas, midriáticas, mióticas), simetria e reatividade à luz, além da observação de movimentos espontâneos nas extremidades (Brasil, 2016; CBMGO, 2016; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

Etapa E – Exposição e Ambiente (Exposure / Environment)

O controle da cena previne riscos adicionais à equipe e ao paciente, devendo-se considerar o mecanismo da lesão e os níveis de energia envolvidos, como em Ferimentos por Arma Branca (FAB) ou Ferimentos por Arma de Fogo (FAF): baixa energia (armas brancas), média energia (armas curtas) e alta energia (fuzis) (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

Para identificar lesões ocultas e evitar absorção têxtil de sangramentos, procede-se com a retirada das vestes da vítima. Em pacientes com alteração de consciência ou trauma grave, recomenda-se a exposição completa, preservando o pudor quando possível e mantendo cautela com evidências em casos de suspeita de crime. Imediatamente após a inspeção, deve-se cobrir a vítima utilizando mantas térmicas ou cobertores aluminizados, além de aquecer a viatura, para prevenir a hipotermia, considerada complicação gravíssima no trauma em função do comprometimento severo da cascata de coagulação (Brasil, 2016; CBMGO, 2016; CBMES, 2022; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

REFERÊNCIAS

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BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

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FREITAS, G. B. L. Trauma e emergência. Irati: Pasteur, 2020.

MAGALHÃES, A. H. R. Cartilha educativa digital como ferramenta de apoio ao ensino-aprendizagem de primeiros socorros, 2023. 126 f. Dissertação (Mestrado em Ensino e Formação Docente) - Programa Associado de Pós-Graduação em Ensino e Formação Docente, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Redenção, 2023.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

Um Incidente com Múltiplas Vítimas (IMV) é definido como um evento que, a partir de um único mecanismo, em um mesmo local e momento, produz um contingente de vítimas que excede a capacidade operacional e os recursos imediatos das equipes presentes na cena (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023). Diante dessa saturação, a doutrina de Atendimento Pré-Hospitalar (APH) impõe uma transição ética rigorosa: a prioridade deixa de ser o esgotamento de recursos em prol do indivíduo mais grave e passa a ser maximizar o número de sobreviventes com os recursos disponíveis, concentrando os esforços em indivíduos com reais chances de sobrevida (Brasil, 2006; NAEMT, 2023). Nesse contexto, é fundamental distinguir o IMV de um desastre: enquanto o IMV permite restabelecer o equilíbrio entre necessidades e recursos por meio de um comando operacional agressivo, o desastre colapsa completamente a rede local, exigindo obrigatoriamente intervenção e assistência externa (Brasil, 2006).

A regulação de urgência e as equipes de resgate utilizam critérios objetivos para deflagrar os protocolos de massa. O SAMU caracteriza um IMV quando a primeira equipe de Suporte Básico de Vida (SBV) encontra cinco ou mais vítimas no cenário (Brasil, 2006, 2016). Paralelamente, classificações corporativas estratificam a resposta em níveis de gravidade: AMV I (até 5 vítimas), AMV II (de 6 a 10), AMV III (de 11 a 15) e AMV IV (mais de 16 vítimas) (CBMGO, 2016). A gestão eficiente do incidente repousa sobre duas bases estruturais: a Tríade da Resposta (Triagem, Tratamento, Transporte) e a Tríade de Comando (Comando, Comunicação, Controle), com o manejo de saúde priorizando, em ordem, os agravos que causam perda imediata da vida, as lesões com risco de perda de membros e as demais condições subsequentes (Brasil, 2006; NAEMT, 2023).

Para coordenar essa logística complexa, adota-se o Sistema de Comando de Incidentes (SCI), uma plataforma gerencial padronizada composta por Comando, Operações, Planejamento, Logística e Administração (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023). Ao chegar, o auxiliar ou técnico da primeira equipe de SBV assume provisoriamente o Posto de Comando (PC), reporta o panorama global à central de regulação antes de iniciar o atendimento isolado e aciona o fluxo de triagem. A Central de Regulação, por sua vez, aciona planos de contingência, alerta a rede hospitalar de referência e implementa a prerrogativa de "Vaga Zero" (Brasil, 2006, 2016). Como diretriz de segurança e interoperabilidade, a comunicação rádio deve ser realizada exclusivamente em linguagem clara e assertiva, suprimindo quaisquer códigos cifrados que possam gerar equívocos entre diferentes agências e corporações (NAEMT, 2023).

A topografia do incidente é submetida a um estrito controle perimetral, dividido em três zonas operacionais (CBMGO, 2016; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023):

A metodologia central empregada para a triagem primária é o método START (Simple Triage and Rapid Treatment). Seu objetivo é avaliar e classificar cada vítima em um intervalo exíguo de 30 a 60 segundos (CBMGO, 2016; NAEMT, 2023). A equipe de triagem, cujos membros devem estar visualmente identificados (preferencialmente com coletes azuis), está terminantemente proibida de interromper o fluxo populacional para prover cuidados definitivos a pacientes individuais. As únicas medidas toleradas durante esse processo são as Intervenções de Salvação Imediata (LSI), que compreendem: desobstrução manual de vias aéreas, descompressão torácica por agulha em suspeita de pneumotórax hipertensivo, aplicação de autoinjetores (antídotos em acidentes químicos) e estancamento de hemorragias exanguinantes por pressão direta ou torniquetes (CBMGO, 2016; CBMES, 2022; NAEMT, 2023). Há, contudo, uma exceção doutrinária conhecida como "Triagem Reversa", aplicada a incidentes com descargas elétricas naturais (raios); nestes casos, pacientes encontrados em parada cardiorrespiratória ganham prioridade máxima de ressuscitação, uma vez que vítimas atingidas e que mantêm sinais vitais costumam apresentar boa estabilidade fisiológica inicial (NAEMT, 2023).

O fluxo decisório do START baseia-se na avaliação consecutiva de quatro parâmetros funcionais, guiados pelo mnemônico de fácil memorização 30-2-Can Do (Frequência respiratória <30; Perfusão <2s; Capacidade de seguir ordens) (CBMDF, 2022; CBMES, 2022; NAEMT, 2023):

Nota Técnica Complementar: Enquanto o START clássico lida basicamente com quatro cores, sistemas mais recentes como o SALT utilizam a etiqueta Cinza para caracterizar vítimas "Expectantes", cujas lesões são tão severas que a sobrevivência é clinicamente improvável frente à escassez massiva de recursos - como grandes queimados com acometimento de 90% da superfície corporal associada à lesão inalatória severa -, mantendo a etiqueta preta restrita a cadáveres confirmados (NAEMT, 2023).

Figura 1 - Fluxograma de classificação de vítimas pelo método START.
Fluxograma de triagem de vítimas baseado em respiração, enchimento capilar e resposta a comandos. Se a vítima não respira, realiza-se posicionamento da via aérea; se continuar sem respirar, classifica-se como óbito (prioridade 4); se voltar a respirar, como vermelho (prioridade 1). Se respira e a frequência respiratória é maior que 30 incursões por minuto, classifica-se como vermelho. Se menor que 30, avalia-se o enchimento capilar: acima de 2 segundos, vermelho; abaixo de 2 segundos, avalia-se a resposta a comandos. Se não responde, vermelho; se responde, amarelo (prioridade 2). Vítimas deambulando ou com pequenas lesões são classificadas como verde (prioridade 3).
Fonte: Brasil, 2006, p. 102.
Para incidentes que envolvam pacientes pediátricos (com aparência infantil sugerindo idade menor que 8 anos), o algoritmo clássico não atende às particularidades fisiológicas inerentes ao desenvolvimento. Nestes casos, aplica-se o método JumpSTART, que modifica os parâmetros de intervenção e avaliação. A principal distinção encontra-se na avaliação respiratória: se a criança mantiver apneia após a tentativa de abertura manual das vias aéreas, o socorrista deve verificar a presença de pulso central - a ausência de pulso decreta a cor Preta. Contudo, caso haja pulso, o profissional administra 5 ventilações de resgate (insuflações). O restabelecimento do drive respiratório classifica a criança como Vermelha, enquanto a falha na reversão do quadro consolida a cor Preta/Cinza (CBMDF, 2022). Outra adaptação vital está na faixa de Frequência Respiratória aceitável, que é estendida para valores entre 15 e 45 IRPM - qualquer taxa abaixo ou acima desse espectro categoriza a criança como Vermelha. Finalmente, o status mental é medido utilizando a escala simplificada AVDI (Alerta, Verbal, Dor, Inresponsivo). Se a resposta pediátrica for unicamente postura patológica de descerebração/decorticação ou inresponsividade total, aplica-se a cor Vermelha. Caso a criança encontre-se em Alerta (A), apresente resposta Verbal (V) ou Localize o estímulo Doloroso (D) adequadamente, recebe a cor Amarela (Brasil, 2016).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Regulação médica das urgências. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESPÍRITO SANTO. Curso de formação de brigadistas profissionais: socorros de urgência. Vitória: CBMES, 2022. Disponível em: https://cb.es.gov.br/Media/CBMES/PDF%27s/CEIB/GCE/Socorros%20de%20urg%C3%AAncia%20-%20Apostila%20CFBP%202022.pdf. Acesso em 17 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

A parada cardiorrespiratória (PCR) consiste na interrupção súbita, abrupta e inesperada da atividade respiratória e da função mecânica cardíaca, cessando a circulação sistêmica e a perfusão sanguínea capaz de gerar pulso central (Brasil, 2003; Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023). O evento resulta em ausência de batimentos cardíacos perceptíveis, pulso central impalpável e, frequentemente, midríase (Brasil, 2003). Trata-se de uma das principais causas de mortalidade global, apresentando baixas taxas de sobrevida extra-hospitalar em decorrência da reduzida intervenção de transeuntes no socorro imediato. Nesse contexto, a reanimação cardiopulmonar (RCP) precoce pode dobrar ou triplicar as chances de sobrevivência da vítima - quando associada à desfibrilação realizada entre 3 a 5 minutos iniciais após o colapso, as taxas de sobrevida podem atingir até 75%. Programas de capacitação da população leiga, inclusive no ambiente escolar, configuram-se como estratégias essenciais de saúde pública, elevando as taxas de sobrevida comunitária de 2% para até 70% (Velis, 2016; Sereno, 2018; Castro, 2019). Clinicamente, a investigação das causas reversíveis da PCR fundamenta-se nos mnemônicos dos 5Hs (hipovolemia, hipóxia, hidrogênio/acidose, hipo ou hipercalemia e hipotermia) e dos 5Ts (tensão no tórax por pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco, toxinas, trombose coronária e trombose pulmonar) (Bernoche et al., 2019; AHA, 2020).

O reconhecimento imediato da PCR baseia-se na avaliação da responsividade, chamando a vítima ("Você está bem?") e realizando estímulo tátil firme por toque ou pinçamento nos ombros (Aehlert, 2018). Os sinais clínicos definidores são a inconsciência, a cianose (coloração azulada da pele e mucosas) como sinal primário identificável de hipóxia, a ausência de movimentos respiratórios e o pulso central impalpável. A respiração agônica (gasping) - caracterizada por movimentos respiratórios espasmódicos, assincrônicos, ineficazes, de curta duração e que podem soar como suspiros, roncos ou gemidos - é comum nos minutos iniciais de uma parada cardíaca primária, indicando fluxo sanguíneo residual para o tronco encefálico, devendo ser interpretada obrigatoriamente como sinal de PCR (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022; CBMES, 2022; NAEMT, 2023).

Para profissionais de saúde, a verificação simultânea do pulso central e da respiração deve ser executada em um intervalo de no mínimo 5 e no máximo 10 segundos. Os locais anatômicos de eleição para checagem do pulso central são a artéria carótida em adultos e crianças (de 1 ano até a puberdade) e as artérias braquial ou femoral em lactentes (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022; CBMES, 2022; NAEMT, 2023). Socorristas leigos devem presumir a PCR imediatamente caso a vítima adulta colapse de forma súbita ou não respire normalmente, iniciando as manobras sem realizar a checagem de pulso (AHA, 2020), utilizando o telefone celular no modo viva-voz para acionamento imediato do serviço de emergência (192 ou 193) e recebimento de instruções em tempo real (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; AHA, 2020). O risco de injúria por compressões torácicas em pacientes que não se encontram em PCR é clinicamente baixo, justificando o início precoce por leigos (AHA, 2020). As manobras de RCP são contraindicadas apenas diante de sinais óbvios de morte evidente: rigidez cadavérica (rigor mortis), livores de hipóstase (livor mortis), putrefação ou decomposição corporal, decapitação, carbonização, desmembramento ou mutilações graves e incompatíveis com a vida (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMSC, 2021; NAEMT, 2023).

Figura 1 - Cadeia de sobrevivência da AHA para Parada Cardiorrespiratória Extra-Hospitalar em adultos.
Sequência da cadeia de sobrevivência em emergências cardiovasculares: acionamento do serviço médico de emergência, RCP de alta qualidade, desfibrilação, ressuscitação avançada, cuidados pós-PCR e recuperação.
Fonte: AHA, 2020, p. 7.

As manobras de RCP obedecem à sequência C-A-B (Compressões torácicas, Abertura de vias aéreas e Boa ventilação) para paradas de etiologia clínica (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; AHA, 2020; NAEMT, 2023). A vítima deve ser posicionada em decúbito dorsal sobre uma superfície plana, horizontal e rígida (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMSC, 2021, 2024). A frequência universal das compressões torácicas é de 100 a 120 por minuto para todas as faixas etárias (Brasil, 2016; Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; AHA, 2020; CBMDF, 2022; CBMSC, 2021, 2024). As especificidades técnicas por faixa etária estruturam-se de acordo com os seguintes protocolos:

Figura 2 - Posição das mãos e mecânica corporal durante a RCP em adultos.
Ilustração das etapas para posicionamento das mãos e execução das compressões torácicas na ressuscitação cardiopulmonar (RCP). Na parte superior, apresenta três etapas de posicionamento das mãos sobrepostas para aplicação da força. Na parte inferior, mostra o socorrista realizando compressões no centro do tórax da vítima em decúbito dorsal e a mecânica corporal correta, com braços estendidos, ombros alinhados sobre as mãos e movimento vertical utilizando a articulação do quadril como fulcro.
Fonte: CBMSC, 2024, p. 118.
Figura 3 - Manobras de RCP em crianças e lactentes.
Ilustrações demonstrando a técnica de compressões torácicas na ressuscitação cardiopulmonar (RCP) em diferentes faixas etárias. Na parte superior, compressões realizadas em lactente utilizando dois dedos sobre o esterno. Na parte inferior, compressões em crianças utilizando uma das mãos ou as duas mãos sobrepostas no centro do tórax.
Fonte: Adaptado de Brasil (2016, p. 333).

A excelência da RCP baseia-se na minimização absoluta de interrupções, limitando qualquer pausa (como troca de funções ou análise de ritmo) a menos de 10 segundos, de modo que as manobras prossigam sem interrupções até a chegada da equipe de suporte avançado, a detecção de sinais clínicos evidentes de circulação espontânea ou a efetiva admissão hospitalar do paciente. Nesse sentido, para assegurar a eficácia hemodinâmica, deve-se permitir o retorno (retração) completo do tórax após cada compressão, viabilizando o enchimento das câmaras cardíacas e evitando apoiar continuamente o peso corporal sobre o esterno do paciente. O revezamento dos compressores deve ocorrer rigidamente a cada 2 minutos ou 5 ciclos de 30:2 para mitigar a fadiga do socorrista e manter a efetividade mecânica. No suporte ventilatório, cada ventilação artificial fornecida deve durar exatamente 1 segundo, liberando volume suficiente apenas para gerar uma expansão torácica visível, evitando-se ventilações excessivas em frequência ou volume para não elevar a pressão intratorácica e comprometer o retorno venoso (Brasil, 2016; Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; AHA, 2020; CBMDF, 2022; CBMES, 2022; CBMSC, 2021, 2024; NAEMT, 2023). Contudo, na impossibilidade de ventilação com barreiras de proteção adequadas, socorristas leigos devem restringir-se à RCP Hands-Only (apenas compressões), uma intervenção cujo risco clínico é mínimo e que garante maior sobrevida quando comparada à ausência de ação no socorro imediato (Bobrow et al., 2010; Brasil, 2016; Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; AHA, 2020; CBMDF, 2022; CBMSC, 2024).

Em cenários de trauma, o manejo adota o protocolo XABCDE, no qual o controle imediato ou concomitante de hemorragias externas exsanguinantes graves possui prioridade absoluta sobre a abordagem de vias aéreas e as compressões torácicas, visto que a perda volêmica maciça constitui a causa primária da PCR traumática (CBMES, 2022; NAEMT, 2023). Em casos de afogamento, devido à natureza estritamente hipóxica do evento, socorristas leigos treinados devem priorizar a RCP convencional com a relação compressão-ventilação, em vez da técnica somente com as mãos (Bernoche et al., 2019). Diante de suspeita de overdose por opioides em pacientes irresponsivos, com pulso detectável mas sem respiração normal, socorristas leigos treinados podem administrar Naloxona por via intramuscular ou intranasal, se disponível, sem que isso atrase o início das manobras de RCP (Aehlert, 2018; AHA, 2020).

Havendo via aérea avançada instalada (tubo endotraqueal ou dispositivo supraglótico), as compressões torácicas tornam-se completamente ininterruptas e a ventilação passa a ser assíncrona, na taxa estável de 1 ventilação a cada 6 segundos (equivalendo a 10 ventilações por minuto) para adultos e adolescentes. Na pediatria (lactentes e crianças), as compressões também devem ser ininterruptas (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; AHA, 2020; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023), contudo a taxa ventilatória recomendada é mais rápida, estabelecendo-se 1 ventilação a cada 2 a 3 segundos (20 a 30 ventilações por minuto) (AHA, 2020). Em ambos os casos, deve-se evitar rigorosamente a hiperventilação - tanto em frequência, quanto em volume - a fim de evitar o aumento da pressão intratorácica que compromete as perfusões coronariana e cerebral (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019).

O desfibrilador externo automático (DEA) deve ser acoplado à vítima imediatamente assim que disponibilizado na cena (CBMDF, 2022), visando a aplicação do primeiro choque em até 3 minutos após o colapso (Aehlert, 2018). O aparelho executa a leitura eletrônica autônoma do traçado eletrocardiográfico, identificando de forma automática os ritmos chocáveis - fibrilação ventricular (FV) e taquicardia ventricular sem pulso (TVSP) - e os ritmos não chocáveis - assistolia e atividade elétrica sem pulso (AESP) (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022; CBMES, 2022).

O protocolo de operação baseia-se nos seguintes passos coordenados:

  1. Ligar o equipamento como prioridade absoluta (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMES, 2022; CBMDF, 2022).
  2. Expor o tórax da vítima, secando a superfície com compressa caso haja umidade ou água (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMES, 2022; CBMDF, 2022).
  3. Fixar as pás autoadesivas no tórax despido seguindo o posicionamento padrão anterolateral / esterno-ápice: uma pá na região paraesternal direita (abaixo da clavícula) e outra no ápice cardíaco esquerdo (linha axilar anterior) (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMES, 2022; CBMDF, 2022).
  4. Conectar os cabos de eletrodos ao corpo do desfibrilador (CBMDF, 2022).
  5. Afastar todos os presentes durante a análise automática do ritmo, assegurando que ninguém exerça contato físico com o paciente ("Afastem-se") (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMES, 2022; CBMDF, 2022).
  6. Sendo o choque indicado pelo comando de voz, garantir o total isolamento da vítima e pressionar o botão de descarga (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMES, 2022; CBMDF, 2022).
  7. Caso o choque não seja indicado pelo aparelho ou imediatamente após a deflagração do choque, reiniciar as compressões torácicas sem perda de tempo, sem proceder à reavaliação de pulso central ou traçado elétrico antes do término do ciclo (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; AHA, 2020; CBMSC, 2021; CBMES, 2022; CBMDF, 2022). O DEA reanalisará o ritmo cardíaco de forma automatizada a cada 2 minutos (CBMSC, 2021; CBMES, 2022).
Figura 4 - Representação ilustrativa do DEA e fotografia do posicionamento das pás.
Ilustração e fotografia de um desfibrilador externo automático (DEA), mostrando o equipamento com pás/eletrodos e o posicionamento anterolateral dos eletrodos em um manequim para treinamento de desfibrilação.
Fonte: Adaptado de Bernoche et al. (2019, p. 465).

Entretanto, a operação do DEA exige a observação rigorosa de critérios anatômicos e de segurança ambiental:

Figura 5 - Fluxograma do suporte básico de vida para leigos.
Fluxograma de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) e uso do DEA, mostrando as etapas desde a avaliação inicial da vítima até a continuidade das compressões e análises do desfibrilador.
Fonte: Bernoche et al., 2019, p. 470.

REFERÊNCIAS

AEHLERT, B. ACLS: suporte avançado de vida em cardiologia. 5ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.

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BERNOCHE, C. et al. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 113, n. 3, p. 449-663, 2019. DOI: 10.5935/abc.20190203.

BOBROW, B. J. et al. Chest Compression–Only CPR by Lay Rescuers and Survival From Out-of-Hospital Cardiac Arrest. JAMA, [S. l.], v. 304, n. 13, p. 1447-1454, 2010.

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CASTRO, J. A. Educação permanente em saúde no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro Campus Engenheiro Paulo de Frontin, 2019. 137 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino na Saúde) – Pós-graduação em Ensino na Saúde, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2019.

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CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: suporte básico à vida. Florianópolis: CBMSC, 2021.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESPÍRITO SANTO. Curso de formação de brigadistas profissionais: socorros de urgência. Vitória: CBMES, 2022. Disponível em: https://cb.es.gov.br/Media/CBMES/PDF%27s/CEIB/GCE/Socorros%20de%20urg%C3%AAncia%20-%20Apostila%20CFBP%202022.pdf. Acesso em 17 jun. 2026.

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SERENO, P. M. M. Ensino e aprendizagem sobre atendimento inicial da parada cardíaca e reanimação cardiopulmonar para estudantes de ensino médio, 2018. 95 f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) - Pós-Graduação em Enfermagem, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, São José do Rio Preto, 2018.

VELIS, N. B. C. RCP rock. Una herramienta para recordar como salvar vidas. Ensayo comunitario sobre la creación de una canción que permite recordar las maniobras de rcp en el tiempo, 2016. 176 f. Tese (Doutorado em Biomedicina) – Facultad de Medicina, Universidad de Córdoba, Córdoba, 2016.

A Obstrução de Vias Aéreas por Corpo Estranho (OVACE) é uma emergência caracterizada pela interrupção súbita da passagem de ar nas vias aéreas superiores, decorrente da aspiração de alimentos, líquidos, próteses dentárias ou pequenos objetos (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Brasil, 2003, 2016; CBMSC, 2024).

Figura 1 - Anatomia das vias aéreas superiores.
Ilustração anatômica em corte sagital da cabeça e do pescoço humanos, identificando estruturas das vias aéreas e digestivas superiores, incluindo cavidade nasal, seios paranasais, palato, língua, faringe, laringe, epiglote, traqueia, esôfago e cordas vocais.
Fonte: Aehlert, 2018, p. 66.

O reconhecimento precoce da gravidade do quadro dita a conduta clínica e baseia-se na classificação da obstrução. Na obstrução parcial (leve), a vítima apresenta troca gasosa, evidenciada pela capacidade de tossir vigorosamente, chorar ou falar, podendo apresentar ruídos respiratórios como estridor (obstrução laríngea), ronco (queda da base da língua) ou gorgolejo (presença de líquidos). A conduta estrita nesta fase é manter a observação e incentivar a tosse persistente, sendo contraindicada a aplicação de manobras manuais. Na obstrução total (grave), há interrupção completa do fluxo aéreo: a vítima apresenta incapacidade de falar ou respirar, tosse ineficaz ou silenciosa, agitação, esforço respiratório severo e cianose de extremidades e lábios. Observa-se frequentemente o sinal universal de asfixia (mãos ao pescoço). Este quadro evolui rapidamente para perda de consciência e subsequente parada cardiorrespiratória (PCR), exigindo intervenção desobstrutiva imediata (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Brasil, 2003, 2016; Bernoche et al., 2019; CBMDF, 2022; CBMES, 2022; Feitosa; Carvalho; Braga, 2023; CBMSC, 2021, 2024).

Figura 2 - Sinal universal de asfixia.
Ilustração de uma criança realizando o sinal universal de asfixia, com uma das mãos ao redor do pescoço e a boca aberta, indicando obstrução das vias aéreas por corpo estranho.
Fonte: Brasil, 2016, p. 325.

Protocolos de Desobstrução para Vítimas Conscientes

Figura 3 - Manobra de Heimlich para desobstrução das vias aéreas em vítima consciente.
Ilustração demonstrando a manobra de Heimlich para desobstrução das vias aéreas em vítima consciente, com destaque para o posicionamento das mãos na região abdominal e a execução das compressões abdominais.
Fonte: Adaptado de CBMSC (2024, p. 110-111).
Figura 4 - Manobra de desobstrução das vias aéreas em gestante consciente.
Ilustração de uma pessoa realizando a manobra de Heimlich em uma gestante consciente com obstrução das vias aéreas, utilizando compressões torácicas acima do abdômen devido à gravidez.
Fonte: Adaptado de CBMDF (2022, p. 82).
Figura 5 - Manobra de desobstrução das vias aéreas em lactente consciente.
Ilustração em duas etapas da desobstrução das vias aéreas em lactente consciente. Na primeira imagem, o bebê é posicionado de bruços sobre o antebraço do socorrista para aplicação de golpes interescapulares. Na segunda, o lactente é colocado de costas para a realização de compressões torácicas.
Fonte: Brasil, 2016, p. 327.
Figura 6 - Desobstrução autônoma das vias aéreas.
Ilustração de uma pessoa com obstrução total das vias aéreas inclinando o abdome contra o encosto de uma cadeira para realizar compressões abdominais autoadministradas e desobstruir a via aérea.
Fonte: Feitosa; Carvalho; Braga, 2023, p. 21.

Protocolo para Vítimas Inconscientes (Qualquer Idade)

Caso a vítima perca a consciência, as manobras manuais de desobstrução devem ser imediatamente interrompidas. O tempo de avaliação de respiração e pulso não deve exceder 10 segundos (Aehlert, 2018; CBMSC, 2021; CBMES, 2022). Inicie imediatamente a seguinte sequência:

  1. Posicionamento e Acionamento: Deitar a vítima em decúbito dorsal sobre superfície plana e rígida, acionar o Suporte Avançado de Vida (SAV) e solicitar um Desfibrilador Externo Automático (DEA) (Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022).
  2. Compressões Torácicas: Iniciar o protocolo de RCP começando por 30 compressões torácicas, com o objetivo primário de gerar pressão mecânica para expulsar o corpo estranho (Brasil, 2016; Bernoche et al., 2019; CBMDF, 2022; CBMSC, 2021, 2024).
  3. Inspeção e Remoção: Após as compressões, abrir a via aérea e inspecionar a cavidade oral. Remover o objeto com os dedos em pinça apenas se estiver visível e alcançável. A varredura digital às cegas é estritamente proibida pelo risco de empurrar o objeto para regiões mais profundas (Brasil, 2016; Bernoche et al., 2019; CBMDF, 2022; CBMSC, 2021, 2024).
  4. Ventilação: Tentar realizar 2 ventilações. Se o tórax não expandir, reposicionar a cabeça da vítima e tentar novamente antes de retornar ao ciclo de compressões torácicas (Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022).

Independentemente da faixa etária, mesmo que a desobstrução seja bem-sucedida e a ventilação restabelecida, a vítima deve ser encaminhada obrigatoriamente a uma unidade hospitalar. Esta conduta é inegociável devido ao risco de complicações e lesões em órgãos internos decorrentes da pressão exercida pela manobra de Heimlich e pelas compressões torácicas (Bernoche et al., 2019; CBMSC, 2021; Feitosa; Carvalho; Braga, 2023).

Figura 7 - Algoritmo de atendimento à OVACE em adulto, criança e lactente.
Fluxograma do algoritmo de atendimento à OVACE em adultos, crianças e lactentes, incluindo avaliação da cena, identificação de obstrução parcial ou total, manobras de desobstrução, suporte ventilatório, compressões torácicas e RCP.
Fonte: CBMDF, 2022, p. 84.

REFERÊNCIAS

AEHLERT, B. ACLS: suporte avançado de vida em cardiologia. 5ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.

BERNOCHE, C. et al. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 113, n. 3, p. 449-663, 2019. DOI: 10.5935/abc.20190203.

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CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Manual de capacitação em atendimento básico a emergências. 2ª ed. Florianópolis: CBMSC, 2024.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: suporte básico à vida. Florianópolis: CBMSC, 2021.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

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FEITOSA, A. N. A.; CARVALHO, B. M.; BRAGA, T. R. O. (org.). Primeiros socorros no cotidiano: como ser a solução eficiente em uma situação inesperada. São Paulo: Pimenta Cultural, 2023.

HAFEN, B. Q.; KARREN, K. J.; FRANDSEN, K. J. Guia de primeiros socorros para estudantes. 7ª ed. Barueri: Manole, 2002.

As hemorragias consistem na perda de sangue devido à ruptura de vasos sanguíneos, configurando a principal causa evitável de morte em traumas. A persistência do sangramento impede a restauração da perfusão tecidual, levando ao choque, que em vítimas de trauma possui origem majoritariamente hemorrágica (CBMSC, 2021; NAEMT, 2023). A classificação topográfica as divide em externas (sangramento visível) e internas, cujos focos mais comuns são tórax, abdome, pelve, retroperitônio e coxas, exigindo palpação e inspeção rápidas das cavidades (Brasil, 2003; CBMGO, 2016; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

A gravidade do sangramento e o método de intervenção são ditados pela natureza do vaso afetado:

Figura 1 - Comparação dos padrões de sangramento em artérias, veias e vasos capilares.
Ilustração comparando padrões de sangramento em artérias, veias e vasos capilares. À esquerda, sangramento arterial com jatos pulsáteis e sangue vermelho-vivo; ao centro, sangramento venoso com fluxo lento e estável de sangue vermelho-escuro; à direita, sangramento capilar com fluxo lento e uniforme.
Fonte: Hafen; Karren; Frandsen, 2002, p. 94.

O Choque Hemorrágico resulta do desequilíbrio entre a oferta e a demanda celular de oxigênio (hipóxia). Os sinais clínicos envolvem taquicardia (>100 bpm), pulso filiforme, pele pálida/fria/cianótica, tempo de enchimento capilar >2 segundos, ansiedade e letargia; sendo a hipotensão um sinal tardio (CBMSC, 2021; CBMDF, 2022). Segundo Freitas (2020) e Feitosa, Carvalho e Braga (2023), o grau do choque obedece às seguintes classes (ATLS/PHTLS):

Para precisão técnica, utiliza-se o Índice de Choque (FC/PAS), segundo o qual resultados ≥0,8 acusam sangramento ativo e >1,0 indicam necessidade transfusional. A intervenção deve evitar o estabelecimento da Tríade da Morte: acidose, coagulopatia e hipotermia (CBMDF, 2022).

Controle de Hemorragias Externas

O controle de hemorragias exsanguinantes é a prioridade absoluta da avaliação primária (Etapa X), devendo preceder qualquer manobra de vias aéreas ou restrição de movimento da coluna (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023). O protocolo de ação abrange:

Figura 2 - Exemplos de modelos comerciais de torniquetes.
Comparação entre dois torniquetes táticos para controle de hemorragias: (A) torniquete CAT (Combat Application Tourniquet) e (B) torniquete SOF-T (Special Operations Forces Tactical Tourniquet), apresentados sobre fundo claro.
Fonte: Adaptado de NAEMT (2023, p. 74).
Figura 3 - Fluxograma para avaliação e controle de hemorragia.
Fluxograma para controle de hemorragia exsanguinante. O diagrama inicia com a pergunta 'Hemorragia Exsanguinante?'. Se não, orienta prosseguir com o protocolo ABCDE. Se sim, divide-se em três regiões anatômicas: tronco, extremidades e área juncional. No tronco, avalia-se se a lesão é aspirativa; caso não, realiza-se compressão direta, e caso sim, utiliza-se selo valvulado. Nas extremidades, as opções incluem compressão direta, curativo compressivo, torniquete, agente hemostático e preenchimento. Na área juncional, as medidas incluem compressão direta, agente hemostático, preenchimento e torniquete juncional.
Fonte: CBMSC, 2021, p. 27.

Manejo de Hemorragias Internas

As hemorragias internas caracterizam-se pelo sangramento interno acumulado em cavidades ou tecidos, frequentemente no tórax, abdome, pelve, retroperitônio e coxas. Pela inacessibilidade cirúrgica em ambiente pré-hospitalar, o objetivo central é estabilizar e realizar transporte ágil. O diagnóstico baseia-se no mecanismo de trauma (contuso), rigidez abdominal ("abdome em tábua"), dor localizada, sinais precoces de choque ou hematomas expansivos. Deve-se observar sinais primários: Sinais de Grey Turner e Cullen (equimoses em flancos e umbigo, revelando sangramento retroperitoneal), hematêmese (vômito com sangue), hemoptise (tosse com sangue espumoso) e melena (fezes escuras) (Brasil, 2003; CBMGO, 2016; CBMSC, 2021; NAEMT, 2023).

O protocolo sistêmico de reanimação prevê o aquecimento da vítima com mantas aluminizadas, oferta de oxigênio a 10-15 L/min (se SpO2​ ≤95%) e elevação de membros inferiores em 20-30 cm (exceto em suspeita de TCE ou trauma raquimedular). Durante o transporte, providencia-se acesso venoso de grosso calibre (18G) para reanimação volêmica com fluidos aquecidos a 39°C (Ringer Lactato), operando sob Hipotensão Permissiva (PAS entre 80 e 90 mmHg) para não induzir a quebra mecânica dos coágulos já formados (CBMGO, 2016; CBMSC, 2021; CBMDF, 2022; CBMES, 2022).

Figura 4 - Sinal de Grey Turner evidenciado por equimoses em flancos abdominais, sugestivas de hemorragia retroperitoneal.
Fotografias clínicas demonstrando o sinal de Grey Turner. À esquerda, extensa equimose violácea na região lateral do abdome e flanco. À direita, área de equimose arroxeada localizada no flanco abdominal. O sinal indica possível hemorragia retroperitoneal e pode estar associado a traumatismos graves ou pancreatite aguda.
Fonte: CBMES, 2022, p. 74.

Ferimentos Perfurantes e Empalamento

A gravidade dos ferimentos perfurantes depende da classificação energética: baixa energia (armas brancas), média energia (armas curtas) ou alta energia (fuzis, que causam extensa cavitação) (CBMDF, 2022).

A conduta padrão diante de um objeto encravado (empalamento) é expor a lesão e estabilizar o objeto utilizando curativo volumoso para evitar sangramentos adicionais. É terminantemente proibido remover ou movimentar o objeto, pois ele pode estar tamponando um vaso lesionado. A única exceção para remoção ocorre se o objeto obstruir a via aérea ou impedir manobras de Reanimação Cardiopulmonar (RCP) (Brasil, 2003, 2016; CBMGO, 2016; CBMES, 2022; CBMDF, 2022). Em traumas abertos de tórax ou abdome com evisceração (exposição de órgãos), os órgãos devem ser cobertos com compressas estéreis umedecidas em soro fisiológico, sem realizar qualquer tentativa de reintrodução à cavidade abdominal (CBMES, 2022).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

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FEITOSA, A. N. A.; CARVALHO, B. M.; BRAGA, T. R. O. (org.). Primeiros socorros no cotidiano: como ser a solução eficiente em uma situação inesperada. São Paulo: Pimenta Cultural, 2023.

FREITAS, G. B. L. Trauma e emergência. Irati: Pasteur, 2020.

HAFEN, B. Q.; KARREN, K. J.; FRANDSEN, K. J. Guia de primeiros socorros para estudantes. 7ª ed. Barueri: Manole, 2002.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

As queimaduras são lesões traumáticas complexas que acometem os tecidos orgânicos de revestimento e as estruturas subjacentes do corpo humano, resultando em desnaturação proteica, destruição celular e morte tecidual. Esses danos são desencadeados pela exposição a agentes térmicos, químicos, elétricos, radioativos, biológicos ou por fricção (Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; Freitas, 2020; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023; CBMSC, 2024). O tecido mais exposto é a pele - estruturada pela epiderme (camada externa), derme (camada intermediária espessa e rica em tecido conjuntivo, colágeno e elastina) e hipoderme (tecido subcutâneo). Por atuar diretamente na regulação térmica, controle hídrico, sensibilidade, excreção e metabolismo, a ruptura dessa barreira protetora não causa apenas danos locais, mas compromete a barreira mecânica de defesa contra infecções, a percepção sensorial tátil e dolorosa, a homeostase hidroeletrolítica e desencadeia graves alterações fisiológicas sistêmicas (CBMGO, 2016; Freitas, 2020; CBMDF, 2022; NAEMT, 2023).

Figura 1 - Estrutura anatômica da pele humana em corte transversal.
Ilustração em corte transversal da pele humana mostrando suas principais estruturas anatômicas, incluindo epiderme, derme e tecido subcutâneo, com folículos pilosos, pelos, glândulas sebáceas, glândulas sudoríparas, poros, vasos sanguíneos, terminações nervosas, corpúsculo de Meissner e músculo eretor do pelo identificados por legendas.
Fonte: CBMDF, 2022, p. 156.

Fisiologicamente, a tolerância da pele humana ao calor é estrita. O tecido suporta temperaturas de até 40°C apenas por breves períodos; qualquer exposição que ultrapasse esse limiar térmico provoca a perda imediata da integridade da membrana plasmática celular (NAEMT, 2023). Em incidentes extremos, como explosões, a associação entre calor severo e gases superaquecidos produz as chamadas lesões quaternárias, caracterizadas pela combinação crítica de queimaduras corporais e agravos respiratórios por inalação direta (Brasil, 2016).

A partir dessa agressão celular, a fisiopatologia local da lesão térmica organiza-se estruturalmente em três zonas teciduais distintas:

Figura 2 - Zonas de lesão tecidual.
Ilustração em corte da pele mostrando as três zonas clássicas de uma queimadura: zona de coagulação no centro da lesão, zona de estase ao redor e zona de hiperemia na região mais periférica.
Fonte: NAEMT, 2023, p. 434.

Quando a extensão das lesões excede 30% da Área de Superfície Corporal Total (ASCT), o agravo local evolui para uma desordem sistêmica massiva. Ocorre a liberação generalizada de citocinas e mediadores inflamatórios na corrente sanguínea, associada a um aumento drástico na secreção de catecolaminas. Esse quadro clínico resulta no chamado choque por queimadura, o qual combina o choque distributivo e o choque hipovolêmico em razão da perda de integridade vascular geral, extravasamento maciço de fluidos e queda severa do volume plasmático circulante (NAEMT, 2023).

Agentes Etiológicos e Mecanismos de Lesão

Classificação quanto à Profundidade, Extensão e Gravidade

Os critérios clínicos de gravidade em pacientes adultos classificam uma queimadura como Grave diante da constatação de: lesões de 2º grau que superem 20% da Superfície Corporal Queimada (SCQ); qualquer queimadura de 3º ou 4º grau; agravos de etiologia elétrica, química ou por radiação; presença estabelecida de lesão inalatória de vias aéreas; lesões localizadas em áreas especiais do corpo (face, mãos, pés, genitália, períneo e articulações); ou quando a vítima encontra-se nos extremos de idade (menores de 3 anos ou maiores de 65 anos) (Freitas, 2020; CBMDF, 2022; CBMSC, 2022).

Quanto à profundidade tecidual atingida, as lesões classificam-se em:

Figura 3 - Classificação das queimaduras segundo a profundidade da lesão tecidual.
Ilustração dos graus de queimadura em um braço humano, mostrando lesões de primeiro, segundo, terceiro e quarto graus. O primeiro grau apresenta vermelhidão superficial; o segundo grau, formação de bolhas; o terceiro grau, destruição profunda da pele; e o quarto grau, comprometimento de tecidos profundos com exposição óssea. Setas indicam a localização e a progressão da gravidade das lesões.
Fonte: CBMGO, 2016, p. 162.

Para a determinação matemática da extensão da SCQ, aplicam-se os seguintes métodos de mensuração:

Figura 4 - Representação da Regra dos Nove para estimativa da superfície corporal queimada.
Ilustração da Regra dos Nove para estimativa da extensão de queimaduras, comparando a distribuição percentual da superfície corporal em lactente, criança e adulto, com valores atribuídos à cabeça, tronco, membros e região genital.
Fonte: NAEMT, 2023, p. 441.

Condutas de Atendimento Pré-Hospitalar (APH)

A abordagem de emergência no ambiente pré-hospitalar inicia-se pelo acionamento do serviço médico de urgência e pela rigorosa garantia da segurança da cena e do socorrista, pautada nos protocolos 3S/ACENA (Brasil, 2016). Se o local apresentar perigos ativos, a exemplo de incêndios ou fiações elétricas expostas, é obrigatório o acionamento imediato e simultâneo das equipes de segurança, como Bombeiros, Polícia Militar e Defesa Civil (Freitas, 2020). Uma vez assegurado o perímetro, procede-se ao isolamento da vítima do agente agressor e à execução imediata das avaliações primária e secundária sob a diretriz do protocolo XABCDE, com atenção especial à imobilização cuidadosa em cenários de politraumatismos associados (Brasil, 2016; Freitas, 2020; CBMDF, 2022). Do ponto de vista clínico, o suporte médico avançado deve ser acionado com extrema urgência perante queimaduras de terceiro e quarto graus, ou naquelas que acometem a face e o dorso, devido ao risco iminente de edema de glote e evolução para choque sistêmico (Feitosa; Carvalho; Braga, 2023).

Manejos Específicos e Situações Especiais

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

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CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

FEITOSA, A. N. A.; CARVALHO, B. M.; BRAGA, T. R. O. (org.). Primeiros socorros no cotidiano: como ser a solução eficiente em uma situação inesperada. São Paulo: Pimenta Cultural, 2023.

FREITAS, G. B. L. Trauma e emergência. Irati: Pasteur, 2020.

GONÇALVES, S. E. F. Primeiros Socorros. Pinheiral: IFRJ/Rede e-Tec, 2014.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

O impacto epidemiológico dos acidentes por criaturas peçonhentas e venenosas configura um desafio crítico de saúde em âmbito global. Estimativas apontam para a ocorrência anual de mais de 5 milhões de picadas de serpentes em todo o mundo, culminando em até 2,7 milhões de envenenamentos sistêmicos. Para efeito de contextualização internacional, nos Estados Unidos, cerca de 10.000 indivíduos necessitam de atendimento médico anual devido a ataques ofídicos, registrando-se uma média de 5 óbitos. Paralelamente, a anafilaxia decorrente de picadas de insetos pertencentes à ordem dos himenópteros atinge entre 0,3% e 8% das pessoas expostas, ocasionando ao menos 40 mortes por ano no território estadunidense (NAEMT, 2023). No cenário nacional, em virtude da imensa biodiversidade brasileira, esses episódios assumem papel de destaque entre os principais fatores indutores de intoxicações graves, exigindo uma atuação pré-hospitalar ágil, padronizada e cientificamente fundamentada (Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; CBMSC, 2024).

Para otimizar os procedimentos de socorro e triagem, torna-se essencial estabelecer a distinção biológica e funcional entre as classificações desses animais. Os animais peçonhentos englobam vertebrados ou invertebrados dotados de glândulas especializadas para a produção de toxinas que se comunicam de forma direta com aparelhos inoculadores estruturais, a exemplo de dentes ocos, presas móveis, ferrões ou aguilhões, o que viabiliza a introdução ativa do veneno nos tecidos da vítima (Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; CBMSC, 2024). Por outro lado, os animais venenosos produzem secreções tóxicas voltadas estritamente para propósitos de defesa orgânica, carecendo, porém, de qualquer aparato anatômico de inoculação ativa. Consequentemente, o envenenamento humano nesses casos processa-se de maneira inteiramente passiva, ocorrendo comumente por meio da ingestão do espécime (ex.: peixe baiacu), pelo contato direto da derme com cerdas urticantes (ex.: lagartas Lonomia ou Pararama) ou ainda via compressão mecânica contra a pele (ex.: sapos) (Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; CBMSC, 2024). Sob a perspectiva do protocolo de triagem e resgate, os critérios para o estabelecimento de suspeita clínica fundamentam-se no relato formal de picada por animal silvestre conhecido ou desconhecido; na eventualidade de o agente agressor não ser identificado, o protocolo determina que a equipe deve manejá-lo preventivamente como um animal venenoso (Brasil, 2016).

As substâncias inoculadas ou absorvidas agem no organismo desencadeando alterações fisiopatológicas severas cujas consequências clínicas oscilam desde sintomas locais evidentes até desfechos letais (Brasil, 2016; NAEMT, 2023). Os componentes desses venenos atuam por intermédio de quatro mecanismos principais, que operam de forma isolada ou em associação:

Esses mecanismos patológicos manifestam-se clinicamente por dor intensa, inflamação crônica, episódios de náuseas, vômitos profusos, hemorragias locais ou sistêmicas, fraqueza acentuada, perturbações da visão e dificuldade respiratória progressiva, podendo evoluir para choque anafilático, colapso de múltiplos órgãos e morte (Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; CBMSC, 2024).

Figura 1 - Comparação entre animais peçonhentos e venenosos.
Montagem comparativa com quatro animais. À esquerda, uma serpente e um escorpião representam animais peçonhentos, que inoculam veneno por estruturas especializadas, como presas e ferrão. À direita, uma lagarta com cerdas urticantes e um sapo colorido representam animais venenosos, cujo veneno causa intoxicação principalmente por contato ou ingestão. A composição evidencia a diferença entre inoculação ativa e exposição passiva ao veneno.
Fonte: Elaborado pelo autor com auxílio da inteligência artificial Gemini (2026).

Acidentes Ofídicos (Serpentes)

No contexto do manejo de acidentes ofídicos, cumpre destacar que entre 20% e 25% das picadas efetuadas por víboras enquadram-se na categoria de "picadas secas", circunstância na qual ocorre a agressão sem a efetiva inoculação de veneno (NAEMT, 2023). No entanto, em face da impossibilidade de confirmação imediata em nível pré-hospitalar, o reconhecimento morfológico do réptil permanece essencial para orientar as condutas assistenciais. As serpentes peçonhentas pertencentes à família Viperidae (gêneros Bothrops, Crotalus e Lachesis) possuem cabeça de formato nitidamente triangular, pupilas verticais em fenda, presas inoculadoras grandes, móveis e situadas na porção anterior da boca, além de exibirem a fosseta loreal, que consiste em um orifício termorreceptor localizado entre o olho e a narina do animal. Em contraposição, os espécimes peçonhentos da família Elapidae (gênero Micrurus) caracterizam-se por cabeça arredondada, pupilas redondas, ausência completa de fosseta loreal e presas fixas de dimensões reduzidas. As serpentes classificadas como não peçonhentas apresentam cabeça arredondada, ausência de fosseta loreal e cauda longa dotada de afilamento progressivo, possuindo presas ausentes ou pequenas instaladas na porção posterior da boca (Brasil, 2003).

As manifestações clínicas e as complicações variam de acordo com o gênero envolvido no acidente:

Figura 2 - Comparação anatômica de gêneros de serpentes brasileiras.
Quadro comparativo das serpentes dos gêneros Bothrops, Crotalus, Lachesis e Micrurus, mostrando detalhes da cabeça, formato da pupila, presença ou ausência da fosseta loreal e características da cauda, utilizados para diferenciação entre os grupos.
Fonte: Elaborado pelo autor com auxílio da inteligência artificial Gemini (2026).

Aracnídeos (Aranhas e Escorpiões)

Os acidentes envolvendo a classe dos aracnídeos dividem-se tecnicamente entre araneísmo e escorpionismo, apresentando espécimes de relevância médica urbana e rural.

Insetos e Outros Invertebrados

As ocorrências associadas a invertebrados envolvem reações imunes agudas ou envenenamentos por carga de toxinas diretamente proporcionais ao volume de exposição.

Figura 3 - Sinais precoces de anafilaxia sistêmica decorrente de acidentes com himenópteros.
Ilustração dos sinais precoces de anafilaxia sistêmica após acidente com himenóptero, destacando urticária disseminada, edema facial e estridor respiratório.
Fonte: Elaborado pelo autor com auxílio da inteligência artificial Gemini (2026).

Protocolo de Atendimento Primário e Suporte Básico de Vida

No âmbito do atendimento pré-hospitalar, o manejo inicial visa estabilizar as funções vitais, desacelerar a taxa de absorção linfática ou hemática das toxinas e garantir a remoção rápida e segura da vítima. Como prioridade absoluta do socorrista, deve-se proceder à rigorosa avaliação de segurança da cena antes de iniciar qualquer intervenção física (Brasil, 2016; NAEMT, 2023). Estabelecida a segurança, executa-se a abordagem primária sistemática estruturada no protocolo XABCDE do trauma; protocolos para resgatistas profissionais incluem fornecimento de oxigênio de alto fluxo para manutenção de saturação adequada, acoplamento de monitor cardíaco e abertura de acesso venoso calibroso mantido em fluxo mínimo de patência (NAEMT, 2023). O socorrista deve avaliar rigorosamente a presença de lesões secundárias e traumas mecânicos decorrentes da cinemática do próprio acidente, tais como contusões ou quedas ocorridas durante a tentativa de fuga do animal agressor (Brasil, 2016).

As condutas pré-hospitalares padronizadas devem seguir os seguintes procedimentos técnicos:

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Manual de capacitação em atendimento básico a emergências. 2ª ed. Florianópolis: CBMSC, 2024.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

FEITOSA, A. N. A.; CARVALHO, B. M.; BRAGA, T. R. O. (org.). Primeiros socorros no cotidiano: como ser a solução eficiente em uma situação inesperada. São Paulo: Pimenta Cultural, 2023.

FREITAS, G. B. L. Trauma e emergência. Irati: Pasteur, 2020.

GONÇALVES, S. E. F. Primeiros Socorros. Pinheiral: IFRJ/Rede e-Tec, 2014.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

A crise convulsiva é caracterizada por alterações motoras, sensoriais e autonômicas decorrentes de descargas elétricas neuronais anormais e excessivas, resultando em contrações musculares involuntárias, rigidez e tremores, podendo ocorrer com ou sem perda de consciência (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; Gomes; Viana; Siqueira, 2018; CBMDF, 2022). As crises podem ser classificadas como parciais (ou focais), quando a descarga se limita a um hemisfério cerebral, ou generalizadas, quando envolvem todo o cérebro simultaneamente (CBMGO, 2016; CBMDF, 2022; CBMES, 2022).

É fundamental diferenciar a epilepsia - uma enfermidade neurológica crônica, de origem estrutural ou genética, definida pela recorrência de crises epilépticas espontâneas - da crise convulsiva isolada (Gomes; Viana; Siqueira, 2018; CBMDF, 2022). Quando o episódio convulsivo não é decorrente da epilepsia, sua etiologia está atrelada a fatores sistêmicos, metabólicos ou externos. Nesses casos isolados, as causas abrangem febre alta - especialmente a crise febril em crianças entre 6 meses e 5 anos -, traumatismos cranioencefálicos, alterações metabólicas como hipoglicemia, infecções, tumores, intoxicações, abuso de álcool e drogas ou doenças agudas do sistema nervoso central (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; Gomes; Viana; Siqueira, 2018; CBMDF, 2022; CBMES, 2022).

O quadro clínico clássico, geralmente de início abrupto e com duração entre dois e cinco minutos, pode ser precedido por uma aura (sensação premonitória) e apresenta-se em duas fases principais: a fase tônica (rigidez corporal, contração muscular sustentada e membros estendidos) seguida pela fase clônica (abalos musculares repetitivos e rítmicos). Outros sinais incluem queda desamparada, dentes e lábios cerrados, sialorreia (salivação intensa), cianose, midríase e incontinência esfincteriana fecal e urinária (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; CBMGO, 2016; Gomes; Viana; Siqueira, 2018; CBMDF, 2022). Ferimentos nos lábios ou na língua frequentemente sugerem um estado pós-convulsivo em pacientes encontrados inconscientes (Brasil, 2016).

O reconhecimento completo do quadro exige a identificação de apresentações não clássicas e a realização do diagnóstico diferencial. A crise de ausência (antigo "pequeno mal") caracteriza-se pela perda de contato com o mundo por alguns segundos e olhar perdido, em que o indivíduo permanece sem resposta a chamados e sem a presença de contrações motoras bruscas (CBMDF, 2022; CBMES, 2022). Em contrapartida, a crise atônica manifesta-se pela perda súbita do tônus muscular, o que pode provocar tanto a queda da cabeça quanto a queda completa do paciente ao solo (CBMDF, 2022).

Ademais, é necessário distinguir as crises decorrentes de descargas elétricas neuronais das Crises Não Epilépticas Psicogênicas (CNEP), que consistem em manifestações motoras involuntárias de origem psíquica, sem atividade elétrica cerebral anormal. A diferenciação clínica da CNEP fundamenta-se em um início gradual estabelecido ao longo de minutos, olhos que costumam permanecer fechados, apresentando resistência à abertura, resposta pupilar preservada e no agravamento do estado do paciente caso ele seja medicado indevidamente com benzodiazepínicos (CBMDF, 2022).

Figura 1 - Principais tipos de crises convulsivas e suas características clínicas.
Diagrama com os principais tipos de crises convulsivas: tônica, clônica, mioclônica e tônico-clônica, apresentando um resumo das características de cada uma.
Fonte: Adaptado de Feitosa, Carvalho e Braga (2023, p. 65-66).

O Estado de Mal Epiléptico (EME) é uma emergência neurológica que exige intervenção imediata, configurando-se quando a crise possui duração superior a 5 minutos contínuos, ou quando ocorrem duas ou mais crises sem recuperação da consciência entre elas, podendo, segundo algumas métricas, estender-se a durações iguais ou superiores a 30 minutos (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; CBMGO, 2016; Gomes; Viana; Siqueira, 2018; CBMDF, 2022).

Protocolos de Atendimento e Suporte Básico de Vida (SBV)

O atendimento de primeiros socorros foca na proteção da vítima e na manutenção da permeabilidade das vias aéreas (Brasil, 2016; CBMDF, 2022).

Figura 2 - Procedimentos básicos de primeiros socorros durante uma crise convulsiva.
Ilustração em estilo cartoon mostrando duas pessoas prestando primeiros socorros a um homem deitado de lado no chão. Um dos socorristas protege a cabeça da vítima com um apoio macio, enquanto o outro afrouxa sua camisa. Óculos foram retirados e estão ao lado. Na parte inferior, há o texto: 'Afrouxar roupas, retirar objetos pessoais, proteger a cabeça.
Fonte: Gonçalves, 2014, p. 106.

Condutas Terminantemente Proibidas durante a Fase Ictal (momento ativo da crise)

Cuidados no Período Pós-Ictal

Ao cessar a crise, a vítima adentra o período pós-ictal, frequentemente marcado por sonolência profunda, confusão mental, cefaleia, mialgia, fadiga, angústia e amnésia sobre o ocorrido (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; Gomes; Viana; Siqueira, 2018; CBMDF, 2022).

O indivíduo inconsciente, mas com respiração presente, deve ser mantido na posição lateral de segurança (decúbito lateral). Afaste curiosos para garantir privacidade - especialmente se houve relaxamento de esfíncteres -, e realize uma revisão primária em busca de lesões ou traumas secundários cranianos e raquimedulares provenientes da queda. Preste apoio emocional, informando sobre o episódio de forma tranquilizadora assim que houver retorno da lucidez. É indispensável o encaminhamento para avaliação médica em ocorrências de crise inédita, quadros prolongados ou repetitivos, ou quando envolver populações vulneráveis como gestantes, crianças e diabéticos (Hafen; Karren; Frandsen, 2002; Gonçalves, 2014; Brasil, 2003, 2016; Gomes; Viana; Siqueira, 2018; CBMDF, 2022).

Figura 3 - Passo a passo para o posicionamento da vítima em Posição Lateral de Segurança (PLS).
Sequência de seis fotografias organizadas em duas colunas, demonstrando o passo a passo da manobra de Posição Lateral de Segurança (PLS). Um socorrista uniformizado realiza o procedimento em uma mulher com camiseta vermelha deitada sobre um colchonete azul. As imagens mostram a flexão da perna da vítima, o posicionamento da mão sob o rosto, o movimento de girá-la de lado e, por fim, a estabilização na posição de recuperação.
Fonte: CBMES, 2022, p. 164.

REFERÊNCIAS

ARRUDA-BARBOSA, L.; SALHAH, S.; VASCONCELOS, I. G.; SALES, A. F. G.; SALES, M. C. Oficinas como ferramentas para ensino de primeiros socorros no ensino médio. Revista Brasileira de Educação e Saúde, Pombal, v. 10, n.3, p. 171-176, jul./set. 2020.

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESPÍRITO SANTO. Curso de formação de brigadistas profissionais: socorros de urgência. Vitória: CBMES, 2022. Disponível em: https://cb.es.gov.br/Media/CBMES/PDF%27s/CEIB/GCE/Socorros%20de%20urg%C3%AAncia%20-%20Apostila%20CFBP%202022.pdf. Acesso em 17 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

FEITOSA, A. N. A.; CARVALHO, B. M.; BRAGA, T. R. O. (org.). Primeiros socorros no cotidiano: como ser a solução eficiente em uma situação inesperada. São Paulo: Pimenta Cultural, 2023.

GOMES, F. A.; VIANA, L. N.; SIQUEIRA, L. C. Primeiros socorros: mitos e verdades, abordagem de ensino-aprendizagem em alunos do ensino técnico do curso de enfermagem. Revista Interdisciplinar SULEAR, [S. l.], ano 1, n. 2, p. 64-85, 2018.

GONÇALVES, S. E. F. Primeiros Socorros. Pinheiral: IFRJ/Rede e-Tec, 2014.

HAFEN, B. Q.; KARREN, K. J.; FRANDSEN, K. J. Guia de primeiros socorros para estudantes. 7ª ed. Barueri: Manole, 2002.

MEDEIROS, L. S. Primeiros socorros na escola: aprender, praticar para agir!, 2023. 100 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica) - Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica, Instituto Federal da Paraíba, João Pessoa, 2023.

O Acidente Vascular Encefálico (AVE), também denominado Acidente Vascular Cerebral (AVC), consiste em uma lesão do tecido cerebral desencadeada pela súbita interrupção do seu fluxo sanguíneo, seja por uma oclusão vascular ou por uma hemorragia, resultando em um quadro de isquemia e consequente dano celular (CBMDF, 2022). A manifestação mais prevalente é o AVE Isquêmico (AVEI), que corresponde a uma parcela de 80% a 87% dos casos e ocorre quando um trombo ou êmbolo obstrui os vasos cerebrais (Aehlert, 2018; CBMDF, 2022). Em contrapartida, o AVE Hemorrágico (AVEH) é fruto do rompimento de vasos sanguíneos superficiais ou profundos do cérebro, o que provoca o extravasamento direto de sangue e o perigoso aumento da pressão intracraniana (CBMDF, 2022; CBMES, 2022).

Figura 1 - Mecanismos fisiopatológicos dos Acidentes Vasculares Encefálicos: AVE Hemorrágico (A) e AVE Isquêmico (B).
Infográfico explicativo dividido em duas partes que detalham os tipos de Acidente Vascular Encefálico (AVE). No lado esquerdo, indicado pela letra A, vê-se um corte frontal do cérebro ilustrando o AVE Hemorrágico, com indicações para 'Hemorragia subaracnóidea' e 'Hemorragia intracerebral'; círculos de zoom mostram um 'Aneurisma cerebral rompido' e um 'Vaso sanguíneo rompido'. No lado direito, indicado pela letra B, vê-se a vista lateral de um cérebro ilustrando o AVE Isquêmico, com duas áreas escurecidas; círculos de zoom detalham as causas como 'Trombose cerebral' (obstrução local) e 'Embolia cerebral' (coágulo transportado bloqueando o vaso, indicado por uma seta).
Fonte: Aehlert, 2018, p. 450.

Existe ainda o Ataque Isquêmico Transitório (AIT), um episódio de disfunção neurológica focal cujos sinais e sintomas regridem de forma total em um período inferior a 24 horas, não deixando evidências de um infarto cerebral agudo (Aehlert, 2018; CBMDF, 2022). Independentemente da etiologia, o conceito central que rege a resposta emergencial é a existência da penumbra isquêmica: uma área de tecido cerebral hipoperfundido adjacente à lesão permanente e que pode ser plenamente recuperada caso o fluxo sanguíneo seja restaurado com agilidade (Aehlert, 2018). Essa dinâmica baseia o princípio mundial de que "Tempo é Cérebro", enfatizando que a rapidez no diagnóstico e no tratamento é o fator mais crítico para minimizar as sequelas e a incapacidade neurológica da vítima (Bernoche et al., 2019; CBMDF, 2022).

O reconhecimento precoce dessa condição baseia-se na identificação de manifestações clínicas abruptas. Os sinais clássicos, muitas vezes reunidos sob a regra dos "Cinco Súbitos", englobam a fraqueza, dormência ou paralisia geralmente unilateral (acometendo face, braço ou perna); confusão mental repentina com dificuldade de fala ou de compreensão; alterações visuais agudas; tontura acompanhada de perda de coordenação ou equilíbrio; e uma cefaleia intensa sem causa aparente (CBMGO, 2016; Aehlert, 2018; CBMDF, 2022). Quando a etiologia é especificamente hemorrágica (AVEH), o quadro frequentemente se agrava com a presença de náuseas, vômitos, diplopia, rigidez de nuca e um rápido rebaixamento do nível de consciência (Brasil, 2016; Aehlert, 2018). Adicionalmente, a avaliação neurológica ocular pode revelar anisocoria, caracterizada por pupilas de tamanhos desiguais (CBMGO, 2016; CBMES, 2022).

Figura 2 - Representação esquemática do núcleo de infarto e da área de penumbra isquêmica no parênquima cerebral.
Ilustração médica em corte coronal do cérebro demonstrando os efeitos de uma isquemia. Na região superior esquerda do desenho, há uma área afetada com um gradiente de cor vermelha e três linhas indicativas com os textos: 'Área de lesão permanente' apontando para o centro vermelho escuro; 'Penumbra, área de lesão recuperável' apontando para a borda em vermelho claro; e 'Cérebro normal exterior à penumbra' apontando para o tecido saudável. Na base do cérebro, destaca-se o fluxo das artérias cerebrais em vermelho vivo.
Fonte: Aehlert, 2018, p. 454.

O atendimento pré-hospitalar (APH) do AVE estrutura-se em uma cadeia de cuidados que começa no reconhecimento imediato pelo público geral e culmina na intervenção clínica avançada. Sendo assim, as condutas de socorro dividem-se conforme o nível de capacitação de quem presta a assistência (Aehlert, 2018; CBMDF, 2022).

Primeiros Socorros e Ações Iniciais (Abordagem por Leigos)

O primeiro elo da sobrevivência repousa sobre a capacidade de qualquer indivíduo reconhecer a emergência e acionar o sistema de saúde. Para isso, utiliza-se a Escala Pré-Hospitalar de AVE de Cincinnati (Brasil, 2016; CBMDF, 2022) ou o mnemônico internacional FAST (Aehlert, 2018). O socorrista leigo deve conduzir três testes simples:

A identificação de apenas uma dessas variáveis anormais estabelece 72% de probabilidade de AVE, enquanto a presença das três eleva essa chance para mais de 85% a 88% (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMES, 2022).

Ao identificar os sinais, é fundamental registrar o horário de início dos sintomas (Time), determinando com a máxima precisão o "Último Momento Normal Conhecido" da vítima, pois essa informação ditará a viabilidade dos tratamentos hospitalares (Brasil, 2016; Aehlert, 2018). Durante a espera pelo socorro especializado, a conduta de proteção exige a restrição oral absoluta: não se deve administrar nenhum tipo de alimento, líquido ou medicamento por via oral, devido ao altíssimo risco de broncoaspiração secundária à paralisia facial ou rebaixamento de consciência (CBMGO, 2016; CBMES, 2022).

Figura 3 - Protocolo de avaliação rápida para identificação de sinais e sintomas de AVE.
Infográfico explicativo sobre a identificação de sinais de AVE, dividido verticalmente em três etapas numeradas. A etapa 1 intitula-se 'Desvio de Rima', orientando a pedir para a vítima sorrir, sinalizando AVE se um dos lados não mover; abaixo, há duas fotos de um homem, uma com expressão neutra e outra mostrando um sorriso assimétrico. A etapa 2 intitula-se 'Queda de um dos membros', instruindo a pedir para a vítima fechar os olhos e esticar os braços para a frente, observando se um deles cai; abaixo, há duas fotos de um homem com os olhos fechados, uma com os braços paralelos e outra com o braço esquerdo caído. A etapa 3 intitula-se 'Fala', orientando a pedir que a vítima repita a frase 'o rato roeu a roupa do rei de Roma' para avaliar se há articulação empastada ou com dificuldade.
Fonte: Bernoche et al., 2019, p. 613.

Condutas Profissionais (Suporte de Vida em Emergências)

Com a chegada da equipe tática de APH, a abordagem passa a seguir protocolos rigorosos de estabilização fisiológica e triagem. A prioridade inicial é a Avaliação Primária (XABCDE), com foco direto na permeabilidade das vias aéreas, ventilação e circulação. Se o paciente apresentar inconsciência e queda da língua, impõe-se a utilização da cânula de Guedel e a aspiração de secreções (Brasil, 2016; CBMGO, 2016; CBMDF, 2022).

A oxigenoterapia deve ser conduzida com critério: administra-se oxigênio suplementar única e exclusivamente para manter a SpO2 ≥94% ou 95%, sendo expressamente desaconselhada a suplementação em pacientes normóxicos (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019; CBMDF, 2022). O posicionamento da vítima também é estratégico; a cabeceira deve ser mantida elevada entre 30º e 45º perante risco de aspiração ou suspeita de hipertensão intracraniana. Contudo, se o paciente tolerar e não apresentar hipóxia, a posição supina pode ser adotada (CBMGO, 2016; Aehlert, 2018; CBMDF, 2022).

Uma etapa mandatória da investigação sistêmica é o teste de Glicemia Capilar, a fim de descartar a hipoglicemia, que atua como um potente mimetizador clínico do AVE. Caso os níveis estejam <60 mg/dL, administra-se dextrose intravenosa; simultaneamente, se houver necessidade de expansão volêmica por desidratação, utiliza-se apenas solução salina isotônica (0,9%), evitando fluidos com dextrose em pacientes não hipoglicêmicos (Brasil, 2016; Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019). No controle hemodinâmico durante o APH, a redução da pressão arterial não é um procedimento padrão e não deve ser realizada de forma automática. A intervenção medicamentosa ocorre estritamente quando a pressão diastólica (PAD) superar 120 mmHg ou a sistólica (PAS) exceder 220 mmHg. Para os pacientes que são potenciais candidatos à terapia trombolítica, a meta pressórica para intervenção é <185/110 mmHg (Bernoche et al., 2019; CBMDF, 2022).

Para consolidar o diagnóstico e a indicação terapêutica, os socorristas devem executar a escala de triagem LAPSS (Los Angeles Prehospital Stroke Screen), desenhada especificamente para validar candidatos à terapia de reperfusão, atrelada a uma anamnese rigorosa (SAMPLA/SAMPLE), questionando enfaticamente o uso crônico de anticoagulantes, anti-hipertensivos e insulina (Brasil, 2016; Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019).

A partir da notificação prévia via rádio, o paciente deve ser transportado com máxima urgência para um Centro de Referência apto a intervir dentro da janela terapêutica, que compreende até 4h30 para a trombólise química intravenosa e até 8h para a trombectomia mecânica, contados a partir do início dos sintomas (Bernoche et al., 2019; CBMDF, 2022). Esse dinamismo reflete-se diretamente nas metas de tempo do intra-hospitalar: avaliação médica em 10 min; notificação da equipe de AVE em 15 min; tomografia computadorizada (TC) de crânio em 25 min; laudo interpretativo em 45 min; e tempo "porta-agulha" estrito em ≤60 min (Aehlert, 2018; Bernoche et al., 2019).

REFERÊNCIAS

AEHLERT, B. ACLS: suporte avançado de vida em cardiologia. 5ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.

BERNOCHE, C. et al. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 113, n. 3, p. 449-663, 2019. DOI: 10.5935/abc.20190203.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESPÍRITO SANTO. Curso de formação de brigadistas profissionais: socorros de urgência. Vitória: CBMES, 2022. Disponível em: https://cb.es.gov.br/Media/CBMES/PDF%27s/CEIB/GCE/Socorros%20de%20urg%C3%AAncia%20-%20Apostila%20CFBP%202022.pdf. Acesso em 17 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

O desmaio é caracterizado clinicamente como uma perda súbita, repentina e temporária da consciência e do tônus muscular. Esse quadro decorre de uma hipoperfusão cerebral global, ou seja, uma diminuição aguda do fluxo de sangue e oxigênio direcionado ao cérebro (Brasil, 2003; Gonçalves, 2014; Feitosa; Carvalho; Braga, 2023). Dentro desse espectro neurológico, o termo síncope é utilizado para descrever o fenômeno completo da perda de consciência associada à perda do tônus postural, culminando obrigatoriamente no retorno espontâneo da função neurológica basal da vítima (CBMGO, 2016; Bernoche et al., 2019; Feitosa; Carvalho; Braga, 2023). Por outro lado, quando o indivíduo sofre apenas uma diminuição ou perda incompleta dessa consciência e do tônus, sem a abolição total de ambos, o evento passa a ser designado como lipotimia (CBMGO, 2016; CBMES, 2022). Independentemente da apresentação, trata-se de um evento de curta duração, que tipicamente se resolve em menos de 5 minutos (CBMES, 2022).

Antes que a perda de consciência se concretize, a vítima costuma atravessar a fase de pré-síncope. Esse período prodrômico é desencadeado pela redução inicial do fluxo cerebral e manifesta-se através de um intenso mal-estar geral, fraqueza, náuseas, palidez acentuada e sudorese excessiva (suor frio). O indivíduo também pode relatar tontura, vertigens e alterações visuais significativas, como visão nublada ou escurecimento do campo visual (Brasil, 2003; CBMGO, 2016; Feitosa; Carvalho; Braga, 2023).

Para o correto direcionamento do atendimento, é fundamental compreender a classificação etiológica desses eventos, que variam conforme o gatilho fisiológico e o perfil do paciente:

Figura 1 - Mecanismos fisiopatológicos da perda de consciência.
Um fluxograma ilustrando a fisiopatologia da perda de consciência. À esquerda, uma caixa com cantos arredondados lista três condições: 'Diminuição do retorno sanguíneo', 'Diminuição do débito cardíaco' e 'Diminuição da perfusão cerebral'. Uma seta de fluxo aponta para a direita, para uma caixa em forma de estrela que contém o texto: 'Perda de consciência'.
Fonte: Feitosa; Carvalho; Braga, 2023, p. 47.

Durante o episódio de desmaio propriamente dito, o socorrista identificará uma queda desamparada da vítima. A avaliação física imediata revelará sinais de hipoperfusão aguda: o pulso estará fraco (bradicardia), a respiração se apresentará lenta ou suspirosa (com dificuldades) e as extremidades corporais ficarão frias e cianóticas (coloração azulada) (Brasil, 2003; CBMGO, 2016; CBMES, 2022). O socorrista deve estar extremamente atento aos sinais de alerta que indicam uma etiologia cardíaca, tais como queda acentuada da pressão arterial combinada a falta de ar e dores irradiadas no peito, pescoço, ombros ou estômago (CBMGO, 2016).

Protocolos de Atendimento e Ações de Primeiros Socorros

A abordagem da vítima requer intervenções específicas que variam conforme o estágio do evento sistêmico:

Figura 2 - Conduta e manobras de primeiros socorros para vítima em episódio de síncope.
Ilustração em estilo cartoon mostrando duas pessoas prestando primeiros socorros a um homem deitado de costas no chão. O socorrista à esquerda segura delicadamente a cabeça da vítima, que está posicionada de lado. O socorrista à direita eleva as pernas da vítima para cima, acima do nível do tórax. Na parte inferior da imagem, há a legenda: 'Lateralizar a cabeça, deitar de barriga para cima, elevar as pernas acima do tórax.'
Fonte: Gonçalves, 2014, p. 106.

Cuidados Pós-Recuperação e Acionamento do SAMU (192)

Após o restabelecimento da consciência, a vítima não deve se levantar bruscamente. O protocolo determina mantê-la deitada por, no mínimo, 2 minutos (Brasil, 2003; Feitosa; Carvalho; Braga, 2023). Exclusivamente nos casos em que a síncope for decorrente de hipoglicemia comprovada e a vítima já se encontrar plenamente alerta e capaz de deglutir, é permitida a administração de açúcar por via oral (CBMGO, 2016).

O Suporte Avançado de Vida (SAMU 192) deverá ser acionado imediatamente sob os seguintes critérios clínicos:

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Núcleo de Biossegurança. Manual de Primeiros Socorros. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2003.

BERNOCHE, C. et al. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 113, n. 3, p. 449-663, 2019. DOI: 10.5935/abc.20190203.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESPÍRITO SANTO. Curso de formação de brigadistas profissionais: socorros de urgência. Vitória: CBMES, 2022. Disponível em: https://cb.es.gov.br/Media/CBMES/PDF%27s/CEIB/GCE/Socorros%20de%20urg%C3%AAncia%20-%20Apostila%20CFBP%202022.pdf. Acesso em 17 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

FEITOSA, A. N. A.; CARVALHO, B. M.; BRAGA, T. R. O. (org.). Primeiros socorros no cotidiano: como ser a solução eficiente em uma situação inesperada. São Paulo: Pimenta Cultural, 2023.

GONÇALVES, S. E. F. Primeiros Socorros. Pinheiral: IFRJ/Rede e-Tec, 2014.

No ambiente de atendimento pré-hospitalar, a abordagem das lesões musculoesqueléticas exige uma avaliação inicial minuciosa e sistemática. A identificação primária dessas injúrias é norteada pelo mnemônico DEDI, que orienta o socorrista a buscar sinais de Dor, Edema, Deformidade e Impotência funcional na região afetada (CBMES, 2022; CBMSC, 2024). Complementarmente, a investigação detalhada da queixa álgica do paciente deve seguir o mnemônico A.L.I.C.I.A., analisando a Aparição, a Localização, a Intensidade (avaliada em uma escala de 1 a 10), a Cronologia, os fatores de Incremento e os fatores de Alívio da dor (CBMDF, 2022).

Para que a avaliação seja completa, a exposição do membro é uma etapa inegociável. Deve-se cortar ou rasgar as vestes da vítima para garantir a visualização direta da lesão. Nesse momento, é imprescindível a remoção precoce de quaisquer adornos, como anéis e relógios, para prevenir o garroteamento do membro à medida que o edema se desenvolve (CBMDF, 2022; NAEMT, 2023; CBMSC, 2024). Antes de realizar qualquer manipulação, e obrigatoriamente logo após, o socorrista deve executar a inspeção distal de PPSM ou estado neurovascular, checando o Pulso, a Perfusão, a Sensibilidade e a Motricidade da extremidade afetada (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMSC, 2022).

Diante da necessidade de imobilização, o profissional deve pautar sua conduta na Regra de Ouro: imobilizar sempre uma articulação acima e uma abaixo do foco da fratura. Caso a lesão ocorra diretamente em uma articulação, a lógica se adapta, devendo-se imobilizar um osso acima e um osso abaixo da área comprometida (CBMGO, 2016; CBMES, 2022; CBMSC, 2024).

A fim de restaurar a perfusão distal e facilitar a alocação das talas, o socorrista deve tentar o realinhamento anatômico manual aplicando uma tração suave. Contudo, este procedimento é limitado a, no máximo, duas tentativas (CBMDF, 2022; CBMSC, 2022; NAEMT, 2023). Se durante a manobra o paciente relatar dor extrema, houver resistência mecânica ou impossibilidade de alinhamento, o membro deve ter seu movimento restrito e ser imobilizado exatamente na posição em que foi encontrado (CBMDF, 2022; CBMSC, 2022, 2024).

Para garantir uma imobilização eficaz e confortável:

No que tange às lesões específicas, as Fraturas Abertas (Expostas) requerem cautela redobrada. A prioridade máxima passa a ser o controle da hemorragia, que deve ser feito através de compressão direta ou da aplicação de torniquete (Brasil, 2016; CBMSC, 2024). O socorrista jamais deve tentar reposicionar os fragmentos ósseos para o interior da ferida (CBMES, 2022; CBMSC, 2024). O protocolo exige a lavagem delicada do local utilizando apenas solução fisiológica, seguida pela cobertura com um curativo úmido e estéril antes de se proceder com a imobilização (Brasil, 2016; CBMSC, 2022).

Já as Luxações e Entorses, devido à dificuldade de diagnóstico clínico definitivo, devem ser tratadas como fraturas no ambiente pré-hospitalar, até que haja comprovação radiológica (CBMSC, 2022; NAEMT, 2023). Como existe um risco considerável de lesão vascular secundária durante a manipulação, a imobilização deve ocorrer preferencialmente na posição em que o membro foi encontrado. Como suporte adicional, a aplicação de gelo ou compressas frias é indicada para atenuar o quadro de dor e reduzir o edema (CBMGO, 2016; CBMSC, 2022; NAEMT, 2023).

Figura 1 - Representação esquemática comparativa entre fratura exposta do fêmur (A), fratura fechada do fêmur (B) e luxação da articulação escapuloumeral (C).
Uma ilustração médica dividida em três seções (A, B e C). A seção A mostra uma vista lateral da coxa humana; o osso fêmur está fraturado no meio, e uma das pontas do osso rompeu a pele, causando uma ferida aberta com sangramento. A seção B mostra a mesma coxa; o osso fêmur também está fraturado, mas as pontas permanecem dentro da coxa e a pele está intacta. A seção C mostra uma vista anterior da articulação do ombro e caixa torácica; a cabeça do osso úmero está completamente deslocada para baixo e para frente para fora de sua cavidade no osso escápula, com a área marcada por um círculo vermelho e uma seta indicando a direção do deslocamento.
Fonte: Adaptado de NAEMT (2023, p. 415, 418).

Avulsão Dentária

As lesões faciais exigem atenção especial à integridade oral. A suspeita de avulsão dentária deve surgir a partir da análise da cinemática do trauma e da identificação física de dentes amolecidos ou totalmente ausentes (CBMGO, 2016; CBMES, 2022).

O sucesso da preservação do elemento dentário depende fortemente da forma como ele é manipulado. O dente deve ser segurado exclusivamente por sua coroa e jamais pela raiz, uma vez que o toque na porção radicular destrói as células periodontais cruciais para o reimplante. Se o dente apresentar sujidades, ele deve ser lavado com solução fisiológica 0,9% por alguns segundos, sem esfregar ou friccionar a estrutura. O fator tempo é crítico: o índice de sucesso do reimplante chega a 90% se realizado em uma janela de até 30 minutos - após 90 minutos, essa probabilidade despenca para apenas 7%. Para tanto, o socorrista deve acondicionar o dente em um meio de conservação adequado durante o transporte à instituição de atendimento de emergência, respeitando a ordem de preferência para os líquidos de acondicionamento (CBMGO, 2016):

  1. Leite (considerado o meio ideal por seu pH e nutrientes);
  2. Solução fisiológica 0,9%;
  3. Água potável.

É expressamente proibido armazenar o dente avulsionado em substâncias como álcool ou cloro, bem como envolvê-lo em papel ou algodão seco, condutas que inviabilizam definitivamente a viabilidade do órgão (CBMGO, 2016).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Manual de capacitação em atendimento básico a emergências. 2ª ed. Florianópolis: CBMSC, 2024.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: emergências traumáticas. Florianópolis: CBMSC, 2022. Disponível em: https://www.cbm.sc.gov.br/index.php/biblioteca/manuais-cbmsc/category/99-manuais-teoricos-de-pesquisa?download=901:aph-ti-emergencias-traumaticas-2022. Acesso em 18 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESPÍRITO SANTO. Curso de formação de brigadistas profissionais: socorros de urgência. Vitória: CBMES, 2022. Disponível em: https://cb.es.gov.br/Media/CBMES/PDF%27s/CEIB/GCE/Socorros%20de%20urg%C3%AAncia%20-%20Apostila%20CFBP%202022.pdf. Acesso em 17 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

O traumatismo cranioencefálico (TCE) é uma lesão provocada por força física externa que compromete estruturas como crânio, encéfalo, vasos sanguíneos, couro cabeludo ou meninges, resultando em dano anatômico ou comprometimento funcional (CBMDF, 2022). As lesões dividem-se em focais (contusão, laceração, hemorragia) e difusas (lesão axonal difusa e edema decorrente de aceleração/desaceleração) (CBMGO, 2016). Elas também são classificadas temporalmente: lesões primárias ocorrem no instante do impacto, enquanto as secundárias desenvolvem-se horas ou dias após, motivadas por hipóxia, hipotensão e hipertensão intracraniana (NAEMT, 2023).

A gravidade do trauma é estabelecida pela Escala de Coma de Glasgow (ECG): TCE leve (13 a 15 pontos), TCE moderado (9 a 12 pontos) e TCE grave (3 a 8 pontos) (Brasil, 2016).

O primeiro passo para o atendimento é o acionamento imediato do serviço de emergência local (193 ou 192), informando o mecanismo do trauma e o estado da vítima após garantir a segurança da cena (CBMSC, 2024). A avaliação e as condutas pré-hospitalares seguem diretrizes rigorosas:

Figura 1 - Sinais clínicos característicos de fratura da base do crânio em traumatismo cranioencefálico (TCE).
Ilustração médica digital apresentando dois sinais clínicos clássicos de traumatismo cranioencefálico. À esquerda, em vista frontal, o rosto de um homem exibe equimose periorbitária bilateral (manchas roxas ao redor de ambos os olhos), encimado pelo texto 'SINAL DO GUAXINIM'. À direita, em vista de perfil, a cabeça de uma pessoa exibe equimose na região do processo mastoide (mancha roxa atrás da orelha), encimado pelo texto 'SINAL DE BATTLE'.
Fonte: CBMSC, 2022, p. 12.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Manual de capacitação em atendimento básico a emergências. 2ª ed. Florianópolis: CBMSC, 2024.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: emergências traumáticas. Florianópolis: CBMSC, 2022. Disponível em: https://www.cbm.sc.gov.br/index.php/biblioteca/manuais-cbmsc/category/99-manuais-teoricos-de-pesquisa?download=901:aph-ti-emergencias-traumaticas-2022. Acesso em 18 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESPÍRITO SANTO. Curso de formação de brigadistas profissionais: socorros de urgência. Vitória: CBMES, 2022. Disponível em: https://cb.es.gov.br/Media/CBMES/PDF%27s/CEIB/GCE/Socorros%20de%20urg%C3%AAncia%20-%20Apostila%20CFBP%202022.pdf. Acesso em 17 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.

A amputação é definida tecnicamente como o processo de separação de um membro ou extremidade de sua parte proximal (CBMSC, 2022). Do ponto de vista clínico, essa lesão divide-se em duas classificações principais: a Amputação Total, que consiste no desprendimento completo do membro (CBMDF, 2022), e a Amputação Parcial, caracterizada pela manutenção de certa continuidade tecidual. Compreender essa diferença é fundamental devido à resposta fisiológica do organismo: em casos de amputação total, pode ocorrer uma vasoconstrição reflexa, que cessa temporariamente a hemorragia. Por outro lado, na amputação parcial, essa resposta vascular é rara, o que geralmente mantém o sangramento ativo e abundante (CBMSC, 2022).

Durante o atendimento pré-hospitalar, a segurança e a avaliação primária formam a base da intervenção. O socorrista não deve se deixar distrair pela dramaticidade visual da lesão, devendo manter o foco imediato no protocolo XABCDE para identificar e tratar ameaças iminentes à vida a curto prazo (Brasil, 2016; CBMSC, 2022). Nesse cenário, o suporte emocional prestado à vítima é indispensável, especialmente quando a lesão está visível ao paciente (CBMDF, 2022; CBMES, 2022).

A abordagem da hemorragia exsanguinante (etapa X) exige o controle imediato de sangramentos volumosos e ativos (CBMDF, 2022). A conduta inicial preconiza a compressão direta da lesão, evoluindo para a aplicação de um curativo compressivo caso a primeira medida seja ineficaz (Brasil, 2016; CBMGO, 2016). Se a hemorragia se mostrar incoercível, o uso do torniquete torna-se o recurso de eleição (CBMDF, 2022; CBMSC, 2022). A aplicação deve ser feita de 5 a 7 cm (aproximadamente 4 dedos) acima da margem da lesão. Contudo, caso existam deformidades estruturais ou sangramentos multifocais que inviabilizem esse distanciamento, o equipamento deve ser aplicado diretamente na raiz do membro afetado, como axila ou virilha (CBMDF, 2022).

Figura 1 - Demonstração prática do correto posicionamento e fixação de torniquete tático em membro superior.
Duas fotografias lado a lado demonstrando a aplicação de um torniquete tático no braço esquerdo de um indivíduo vestindo uma camiseta polo vermelha. Na foto da esquerda, em vista lateral, destaca-se o torniquete preto posicionado no terço superior do braço com a haste de torção (molinete) fixada. Na foto da direita, em vista posterior oblíqua, observa-se o sistema de fivela e o fechamento do mesmo torniquete. O cenário ao fundo é uma área externa com gramado.
Fonte: CBMDF, 2022, p. 120.

O manejo do coto - o ferimento remanescente - requer a limpeza cuidadosa de resíduos e sujidades, seguida pela cobertura com um curativo limpo, seco e estéril (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMES, 2022). É imprescindível evitar a manipulação excessiva da região, pois o atrito pode deslocar coágulos recém-formados e reiniciar a hemorragia severa (Brasil, 2016; CBMDF, 2022).

Simultaneamente, os cuidados com a parte amputada devem ser rigorosos para viabilizar um futuro reimplante cirúrgico. A extremidade seccionada precisa ser enxaguada delicadamente com soro fisiológico ou Ringer Lactato, visando a remoção de contaminações grosseiras (Brasil, 2016; CBMSC, 2022; NAEMT, 2023). Em seguida, a peça deve ser envolvida em gaze estéril ou pano limpo umedecido com soro fisiológico, inserida em um saco plástico estéril ou limpo, e devidamente vedada (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMES, 2022). O processo de refrigeração é feito inserindo este primeiro invólucro dentro de um segundo recipiente - como uma caixa de isopor ou outro saco plástico - que contenha gelo picado ou água gelada (CBMSC, 2022; CBMES, 2022). A identificação adequada com o nome do paciente, a descrição da parte amputada, além da data e hora do evento, deve constar na embalagem (Brasil, 2016).

É terminantemente proibido colocar a parte amputada em contato direto com o gelo, usar gelo seco ou submeter a peça a temperaturas abaixo de zero, devido ao altíssimo risco de congelamento e destruição celular irreversível dos tecidos (Brasil, 2016; CBMDF, 2022; CBMES, 2022; CBMSC, 2022). Além disso, o transporte da vítima jamais deve ser atrasado em função da busca pela extremidade amputada; caso não seja prontamente localizada, o protocolo orienta deixar equipe adicional ou suporte policial na cena para dar continuidade às buscas (Brasil, 2016; CBMSC, 2022).

Síndrome de Esmagamento (Crush Syndrome)

A Síndrome de Esmagamento ocorre como uma manifestação sistêmica decorrente da rabdomiólise - a destruição intensa das fibras musculares -, provocada pela compressão contínua e prolongada de grandes massas musculares (CBMDF, 2022; CBMES, 2022). Esse quadro é frequentemente encontrado em situações de soterramentos, colapsos de estruturas, vítimas retidas em ferragens de acidentes veiculares ou até mesmo em idosos caídos ao solo por longos períodos sem assistência (Brasil, 2016; CBMES, 2022; CBMSC, 2022).

A fisiopatologia da síndrome baseia-se no aprisionamento de toxinas - o peso da compressão isola o potássio e a mioglobina no membro afetado. O momento crítico ocorre durante o desencarceramento: ao liberar o membro, a reperfusão sanguínea arrasta essas substâncias abruptamente para a circulação sistêmica (CBMDF, 2022; CBMSC, 2022). O excesso de potássio circulante carrega um alto risco de induzir arritmias cardíacas fatais, enquanto a mioglobina livre sobrecarrega os rins, podendo precipitar uma insuficiência renal aguda (CBMES, 2022; CBMSC, 2022). Para a identificação clínica no local, o socorrista deve avaliar sinais como dor intensa, parestesia (formigamento), ausência de pulso distal, palidez da extremidade, paralisia local e considerar o tempo prolongado de encarceramento da vítima (Brasil, 2016; CBMDF, 2022).

Figura 2 - Fisiopatologia da Síndrome de Esmagamento e diretrizes fundamentais para o atendimento pré-hospitalar.
Infográfico explicativo sobre a Fisiopatologia da Síndrome de Esmagamento (Crush Syndrome), dividido em três seções principais. A primeira seção, à esquerda, mostra um membro inferior sob um peso estrutural, ilustrando isquemia, rabdomiólise e o acúmulo de toxinas (potássio e mioglobina). A seção central e à direita detalha o momento da reperfusão após o desencarceramento, mostrando as toxinas entrando na circulação sanguínea e causando efeitos sistêmicos: excesso de potássio no coração, elevando o risco de arritmias fatais, e sobrecarga de mioglobina nos rins, levando à insuficiência renal aguda. Na parte inferior, há um guia de conduta: recomenda-se Suporte Avançado (SAV) prioritário, uso de torniquete preventivo antes da soltura se o SAV não estiver disponível, e proíbe-se elevar o membro afetado ou realizar punção venosa no local do esmagamento.
Fonte: Elaborado pelo autor com auxílio da inteligência artificial Gemini (2026).

Para evitar a reperfusão tóxica aguda, a liberação do paciente não deve ser realizada sem o devido planejamento estruturado (CBMDF, 2022). O Suporte Avançado de Vida (SAV) com a presença prioritária de um médico na cena é mandatório para iniciar a reposição volêmica precoce e agressiva antes mesmo da soltura do membro. Caso o suporte médico não esteja disponível tempestivamente, o protocolo prevê a aplicação de um torniquete preventivo em localização proximal ao membro esmagado, antecedendo a remoção do objeto agressor, bloqueando assim o retorno venoso tóxico para a circulação central (CBMDF, 2022; CBMSC, 2022). Sob nenhuma hipótese deve-se elevar o membro afetado, pois a ação da gravidade aumenta a pressão intracompartimental e agrava a lesão tissular, mantendo-se a extremidade no nível do coração. O acesso venoso periférico também não deve ser puncionado nesse mesmo membro (Brasil, 2016; CBMES, 2022; CBMSC, 2022).

Após a liberação, a assistência pós-desencarceramento exige rigor na avaliação secundária. O protocolo orienta:

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE SANTA CATARINA. Tópicos introdutórios: emergências traumáticas. Florianópolis: CBMSC, 2022. Disponível em: https://www.cbm.sc.gov.br/index.php/biblioteca/manuais-cbmsc/category/99-manuais-teoricos-de-pesquisa?download=901:aph-ti-emergencias-traumaticas-2022. Acesso em 18 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Manual de atendimento pré-hospitalar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. 2ª ed. Brasília: CBMDF, 2022.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESPÍRITO SANTO. Curso de formação de brigadistas profissionais: socorros de urgência. Vitória: CBMES, 2022. Disponível em: https://cb.es.gov.br/Media/CBMES/PDF%27s/CEIB/GCE/Socorros%20de%20urg%C3%AAncia%20-%20Apostila%20CFBP%202022.pdf. Acesso em 17 jun. 2026.

CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE GOIÁS. Manual operacional de bombeiros: resgate pré-hospitalar. Goiânia: CBMGO, 2016.

NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: prehospital trauma life support. 10ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2023.